Há algumas semanas, caminhava pela rua em direção a um transporte público quando um homem atrás de mim conversava ao telefone em tom indignado. “Cansei de pessoas, não quero mais conhecer ninguém. Prefiro falar com uma máquina.” Entre a curiosidade e o espanto, ladeei o caminhar enquanto refletia sobre o que levou tal indivíduo àquela resolução.Terá sido ele vítima de algum golpe ou sofrido desilusão amorosa tamanha que impeça novas investidas? Não era propriamente um garoto, talvez por dentro. Tentava remendar seus escombros de uma vida e erguer as defesas.Busquei me distanciar, não me envolver no enredo, mas parecia que o sujeito estava a me seguir. Eu parava, ele estancava. Eu me movia, ele continuava. Desapressei o passo para ser ultrapassada, porém, ele se manteve em frente a uma vitrine observando o abstrato. Não pausou a fala, não sei se alheio ao nosso “gato e rato” ou buscando mesmo uma plateia. Tinha os cabelos varrendo os ombros, talvez cinquenta e poucos anos cobertos por uma boina. Com papéis debaixo do braço, a ir ou vir de um compromisso, parecia naquela manhã determinado em desistir das experiências. “Quero ficar no meu quarto, sozinho, fazendo música. Minha mãe já sabe, já avisei.” Especulei se era do rock ou metaleiro mais pesado, imaginando quais instrumentos tocava, sendo mais letrista ou arranjador ao criar a melodia do mundo ideal. No repertório, quiçá fosse mais vantajoso esquivar-se do imprevisível e se refugiar no paraíso imediato do seu metro quadrado particular.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!“Já vivi muito, tudo que tinha para viver. Não preciso de mais”, avançou com o desabafo enquanto, por fim, aumentamos a distância. De longe, ainda reparei que se mantinha na chamada, quase em monólogo de protesto. À medida que sua voz desaparecia do meu perímetro, perguntei-me quanta gente, a despeito da idade, tem escolhido abrir seu emocional apenas para uma máquina. Conviver não está mesmo fácil, parece roleta-russa. Discordar pode atrair violência; dizer “não” se torna gatilho; a diferença é percebida como algo sem valor; contentamo-nos com a superficialidade dos julgamentos; “volta pra tua terra” é refrão de muitos discursos; interessar-se de verdade pelo outro não é regra. E as redes sociais têm sido a porta para um lado sombrio se apresentar, uma estampa de como podemos suspender a humanidade quando nos convém. Na maioria das publicações, se não no primeiro, logo a partir do segundo comentário começa a propagação de ódio, ameaças à integridade e à vida. Por outro lado, essa mesma plataforma vem nos forçando a demonstrar prova de humanidade. Seja nos textos, nos vídeos, nas músicas, o questionamento comum é se aquilo foi ou não criado por inteligência artificial. O futuro poderá exigir que o selo “human-made” certifique a origem das coisas, a exemplo dos já existentes “biológico”, “orgânico”, “não-transgênico”.Quanto ao senhor que encontrei na rua, pode ser que tenha uma máquina que o escute com atenção, diga o que quer ouvir, o elogie em diferentes áreas e, assim, em doses viciantes, possa suplantar um pouco o vazio primal da necessidade e amor e reconhecimento. Entretanto, ao eliminarmos o conflito, a diversidade, o frio na barriga ao provar o novo, a incerteza própria de estar vivo, o amor que se entranha sem planejarmos, as frustrações e também os decorrentes aprendizados, o que nos sobra de humanidade? .O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Um dia para além da pele .O eu futuro