A histórica e fundamental virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro foi muito mais que a vitória de uma narrativa. As pessoas em rede dobraram os algoritmos, as ruas mudaram de dono e um exército digital, criado e comandado pelo deputado André Janones no WhatsApp, cumpriu ordens durante os 21 dias entre os dois turnos. Há uma profusão de análises sobre o resultado, mas quase todas usam palavras que vale a pena conhecer mais de perto.Rua vem do latim ruga, a prega da pele, que com o tempo passou a nomear o espaço entre duas fileiras de casas. A partir de 2013, quando os dois lados foram para as ruas, foi a direita quem as dominou. No segundo turno de 2026, o outro lado reagiu e o povo das rugass (a minha turma) foi para a urna. Rede vem de rete, a malha de pescar, e até hoje carrega a ideia de captura. Até bem pouco, parecia que só um lado sabia usá-las e que diante de uma mentira repetida mil vezes tínhamos de nos render. Algoritmo vem do nome de um matemático persa do século IX, al-Khwarizmi, e quer dizer uma sequência de regras. Não sei bem se dobramos o algoritmo, se o contornamos, passando mensagens de celular em celular ou se o alimentamos.Narrativa vem de narrare, contar, parente de gnarus, aquele que conhece. Narrar era tornar algo conhecido, real ou imaginário. Hoje, a palavra designa a versão que se impõe aos fatos. Miliciano, de miles, soldado, foi durante séculos o cidadão que pegava em armas para defender a comunidade. No Brasil contemporâneo, passou a designar quem domina a comunidade pelas armas. Exército vem de exercitus, o que foi exercitado. A imagem mais antiga de um exército, esculpida em pedra na Suméria, atual Iraque, há 4.500 anos, mostra soldados em bloco, avançando juntos. A metáfora foi adotada com gosto na campanha.André Janones e seu exército tiveram papel decisivo, mas não foi ali que começou a virada. No dia seguinte à derrota no primeiro turno, estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram em passeata por Niterói, quando o canal dele ainda era pequeno. Os atos se espalharam por mais de 40 universidades públicas, e o canal cresceu junto. Janones soube aproveitar o movimento e ampliá-lo, mas não o criou.Polo vem do grego pólos, eixo. Polarização surgiu na física, para a luz que vibra numa única direção, e depois chegou à política, onde passou a nomear campos que se tratam como inimigos. Polos são as pontas do mesmo eixo, e um não existe sem o outro.Tudo isso está hoje disponível na internet; bastam alguns cliques. A conclusão é minha. Num país em que o Exército de verdade governou por 21 anos e calou a sociedade, a palavra pesa. Exército supõe hierarquia e obediência. Os estudantes da UFF não esperaram o comando de ninguém para sair às ruas. Tudo indica que foi um movimento espontâneo. Lula tem agora a chance de transformar esse exército em participação. Dez milhões de pessoas mostraram que estão dispostas a agir. Cabe ao governo criar canais reais e espaços para ouvir os sol... os cidadãos, em vez de lhes dar ordens. Um governo democrático precisa valorizar essa disposição, cumprir o que prometeu, atender às demandas da sociedade e ir além da polarização, porque, como Lula disse no primeiro discurso depois da vitória, ele é o presidente de todos os brasileiros pelos próximos quatro anos.Antes mesmo de as urnas fecharem, o general do Exército de Lula falou em vitória acachapante. Acachapar, variante de acaçapar, vem de caçapo, o filhote de coelho que, diante da ameaça, se encolhe rente ao chão. Daí os sentidos de achatar, abater, humilhar. Nos exemplos dos dicionários, quem acachapa derrota o adversário, e quem fica acachapado é sempre o vencido. Por isso, acachapantes costumam ser as derrotas. A vitória de Lula foi indiscutível. Acachapado ficou Flávio Bolsonaro, que não reconheceu formalmente o resultado e, dois dias depois, deixou o país rumo aos Estados Unidos, depois de ter recebido ordem para entregar o passaporte. Como o caçapo, escondeu-se..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Eleições no Brasil: O medo venceu a insatisfação