O resultado da eleição presidencial no Brasil, que assegurou a Lula o seu quarto mandado, apesar de toda a impopularidade do seu terceiro governo, traz um recado muito claro: o medo venceu a insatisfação.Flávio Bolsonaro é o primeiro candidato desde a redemocratização do Brasil a tomar uma virada. Depois de vencer o primeiro turno e de estar à frente na maioria das pesquisas antes do segundo turno, viu Lula chegar aos 51,79% dos votos válidos e vencer com a uma diferença superior a 4,4 milhões de votos – quase metade do número de votantes em Portugal.Infelizmente, o domingo de votação não foi como se esperava. Houve muita confusão, boca de urna ilegal, hostilidades de parte a parte, urnas destruídas, interferência de prefeitos apoiadores de Bolsonaro e, para coroar o dia, uma grande confusão envolvendo o Tribunal Eleitoral que chegou ao Supremo Tribunal Federal. Pela primeira vez o horário de votação foi estendido e várias urnas não fecharam às 17 horas.Mas nada disso pode ser usado por Flávio Bolsonaro e seus aliados para justificar a derrota. Alguns números revelam exatamente o que aconteceu no Brasil neste domingo e os únicos responsáveis por isso são o candidato do PL, seus aliados e alguns de seus eleitores. A verdade é que Flávio encerrou o primeiro turno com a certeza de que o páreo já estava ganho e, mesmo antes de assumir, começou a “governar”. Assumiu uma postura agressiva, arrogante, autoritária e fugiu de dar resposta a acusações muito graves acerca de seu passado, seu envolvimento com a milícia, seu patrimônio e medidas que seriam tomadas a partir de 1º de janeiro ao assumir efetivamente a presidência.Mesmo sem assumir a derrota, os números não deixam dúvida de que a vitória do petista não é contestável. Foi a menor taxa de abstenção em 20 anos, com 19,1%. Votos brancos e nulos caíram de quase seis milhões no primeiro turno para pouco mais de quatro milhões no segundo turno. Lula ganhou mais de 10 milhões de votos, enquanto Flavio teve mais 3,7 milhões em relação ao primeiro turno. Além disso, o atual presidente ampliou sua vantagem na cidade de São Paulo, venceu na cidade do Rio de Janeiro e virou no Estado de Minas Gerais, mantendo inclusive uma tradição: desde a redemocratização, todos os candidatos que venceram no estado mineiro foram eleitos.Venceu a vontade popular, a mobilização das pessoas que decidiram de maneira soberana derrotar o medo de um governo autoritário, que se entregaria aos Estados Unidos, com fortes indícios de que iria se blindar e também os seus, além de cortar em pontos muitos sensíveis.O recado para o presidente Lula também é claro. O voto de muitos (muitos, mesmo) foi contra Flávio Bolsonaro e não efetivamente no candidato Lula. A maioria das pessoas não está satisfeita com os rumos que o Brasil tomou nos últimos quatro anos. Apesar da vitória, ele vai ter um longo trabalho pela frente para provar a essas pessoas que fizeram a escolha certa. Não será uma tarefa fácil. Passada a euforia desse triunfo da democracia terá de dar resposta aos problemas evidentes pelos quais a população passa. Terá de mudar a postura em relação aos casos de corrupção envolvendo os poderes e vai ter que fazer tudo isso tendo de lidar com um Poder Legislativo hostil – seja na Câmara, seja no Senado. Para governar, terá de fazer concessões e buscar se reaproximar do Centrão. O que é sempre um risco e um dos maus do Brasil.Já para o candidato derrotado, o cenário não é nada otimista. Investigado em várias frentes e agora sem o foro privilegiado, já que vai deixar de ser senador da república no final do ano, me parece que seu destino deverá ser também os Estados Unidos, abrindo assim uma oportunidade única para a direita brasileira.A direita fará oposição a um governo fragilizado (ainda que tenha vencido as eleições de maneira heroica e soberana), poderá se desvincular dos “Bolsonaros”, que são os grandes derrotados neste segundo turno, se afastar das polêmicas envolvendo Jair e seu filhos e construir uma pauta menos radical, como espaço para o contraditório, mas com uma proposta para o país que baseadas em princípios nacionalistas, na efetiva defesa de todas as famílias e do bem comum. Será um tempo difícil, mas que poderá trazer finalmente um novo rumo para a política e a democracia brasileiras..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Lula da Silva promete "o melhor mandato da história" e agradece aos jovens.E agora? Quarto mandato vai ser o mais desafiador da vida de Lula