"Estou certo de que o convívio com músicos portugueses e luso-africanos proporcionou certa expansão em meu vocabulário musical"
"Estou certo de que o convívio com músicos portugueses e luso-africanos proporcionou certa expansão em meu vocabulário musical"Foto: Alfredo Matos

"Sinto que devo estar perto dos que que mantêm viva a chama". Fred Martins volta para o Brasil e faz shows de despedida

"Espero que o mundo não acabe antes de realizar esses sonhos. E que haja futuro, para todos", diz o músico em entrevista ao DN Brasil.
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Após 15 anos vivendo entre Portugal e Espanha, o cantor Fred Martins sentiu um chamado para casa. O artista vai embora do país e retornará ao Brasil. Em entrevista ao nosso jornal, Martins conta sobre as razões que o levaram a voltar e sobre os shows de despedida.

De que forma a experiência de viver em Portugal influenciou sua composição e sua forma de fazer música?

Há inúmeras linhas de continuidade entre as músicas de Portugal e do Brasil e creio que, ao passar aqui estes anos, pude vivenciá-las de forma mais consciente e consistente. Sabemos que uma série de formas musicais e poéticas, e também de instrumentos típicos da música popular do Brasil, lá chegaram por mãos portuguesas. Mais tarde essa música do Brasil, já reconhecida mundo afora (a chamada MPB), reverberou de maneira sensível na obra de autores da moderna música portuguesa. É bonito observar, desde aqui, esse movimento. Sempre soube que a música que eu vinha fazendo, antes de aqui chegar, já trazia naturalmente, elementos que remetiam à herança cultural portuguesa. Mas eu os percebia de forma mais intuitiva e difusa. Estou certo de que o convívio com músicos portugueses e luso-africanos proporcionou certa expansão em meu vocabulário musical.

Sua obra dialoga muito com a tradição da MPB. Estar fora do país mudou esse diálogo?

Mudou, no sentido de torná-lo mais intenso. Houve um processo de depuração que me indicou o caminho a seguir. Estar fora do Brasil fez com que eu me reaproximasse daquilo que me fez abraçar pra sempre a música. A canção popular pode trazer a chave para entrever, quase tocar (de fato nas cordas do violão), os modos de ser do Brasil.

Houve um momento específico em que você sentiu que o ciclo em Portugal estava se encerrando?

Acho que não se encerrou, deve continuar em nova fase. Apenas troco de ponto de vista, retornando à minha paisagem de base.

O que motivou a volta ao país onde nasceu?

O mestre dos mestres, Paulinho da Viola, disse recentemente numa entrevista que “ o samba não morre porque o povo não deixa”. Creio que entendo o que ele quer dizer. Sinto que devo estar perto dos que que mantêm viva a chama.

Viver fora muda a forma como a gente enxerga o Brasil? O que você passou a ver com mais clareza?

Fica mais nítida a força de nossa cultura popular, e a visão de quem, de fato, inventa e sustenta o país. No caso, não o agro, mas os que estiveram sempre na base, e à margem, de uma sociedade ultra desigual. Talvez o tal “povo” a que o Paulinho de Viola se refere. Espanta também o modo como é recebida a música brasileira onde quer que se possa ir, com grande admiração, encanto, curiosidade, reverência, imenso carinho. Isso nos faz refletir sobre o que é que a nossa musa tem? Só pode ser algo mesmo especial. Afinal nossa história não é brincadeira - repleta de brutalidade e horror - a gente se pergunta: Como é possível tanta a força criativa, afirmação de vida e alegria, vindo de quem se acostumou a remar contra uma maré tão pesada?

O que você está mais curioso para reencontrar no Brasil: pessoas, paisagens ou sons?

Seguramente, os elementos todos e além…

O que os fãs podem esperar dos shows de despedida?

Um percurso pelas canções que embalaram esses anos. Algumas, várias, nasceram nesse contexto, inspiradas pela musicalidade e poesia daqui. Quero cantar também, do meu jeito guanabarino, as canções que aprendi, e que adoro, de autores portugueses como o Zeca Afonso, Fausto, Alain Oulman, Pedro Homem de Melo.

Quais aprendizados musicais mais levar daqui?

Inúmeros. Alguns já identifico. São palpáveis, consigo pegar, tocar, com os dedos. Outros apenas com a voz ou a língua. Mas há os que se mostrarão com o tempo. Todos reunidos nos acordes e palavras que aprendi aqui a gostar de evocar.

Quais são os projetos para o futuro?

Quero dar continuidade aos encontros estabelecidos aqui, como a gravação de um novo álbum e duo com Nancy Vieira. Seguir cantando e tocando com a Joana Amendoeira o nosso Fado Crioulo. Manter os shows e gravações do meu dueto bossanovístico com o maestro Jaques Morelenbaum, que se iniciou em Lisboa. Ampliar os laços de amizade e parceria musical com portugueses e afro-lusitanos, como aconteceu no projeto Lá no Xepangara (de Manuel de Oliveira, sobre a obra do Zeca Afonso) ou no novíssimo álbum/concerto coletivo com canções do Fausto. Quero gravar um álbum autoral em voz e violão. Enfim, espero que o mundo não acabe antes de realizar esses sonhos. E que haja futuro, para todos.

Últimos shows

Os shows de despedida estão marcados para os dias 23 e 28 de janeiro. No dia 23 de janeiro a apresentação será no MACAM, com a participação de Sandra Martins no violoncelo. No dia 28 de Janeiro, Fred Martins apresenta-se ao lado de Barbara Rodrix e Martin Sued & Orquestra Assintomática, no Bota, nos Anjos, em Lisboa.

No dia 7 de fevereiro, em Olhão, serão duas sessões. A primeira às 19h e a segunda às 21h30, no República 14, também ao lado da violoncelista Sandra Martins

amanda.lima@dn.pt

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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