Cabo Verde defronta o Uruguai este domingo, 21 de junho,i no segundo jogo da história da seleção do pequeno país africano em Copas do Mundo, depois de na estreia ter espantado o planeta ao empatar com a poderosa Espanha sem gols e exibição impressionante do goleiro Vozinha e companheiros. Hora para falar com um dos mais fervorosos, e surpreendentes, torcedores dos Tubarões Azuis: Seu Jorge, o aclamado músico brasileiro que está em processo de reconhecimento de cidadania cabo-verdiana e narra, no documentário Um Milagre no Atlântico, a epopeia da seleção africana até ao Mundial.“Cabo Verde sempre esteve presente na minha história, mesmo antes de eu compreender toda a dimensão dessa ligação, antes eu admirava a cultura local, agora tenho afeto e sentimento de pertencimento”, conta Seu Jorge, bisneto de uma mulher cabo-verdiana, ao DN Brasil. Mas e se os Tubarões atravessarem o caminho da seleção brasileira na fase mata-mata? “Ah, essa pergunta é uma armadilha!", desabafa o autor do recém lançado álbum The Other Side. "Porque Cabo Verde conquistou um espaço muito especial dentro de mim mas o coração é brasileiro, não tem jeito", ri.Como está a decorrer o processo de obtenção da cidadania de Cabo Verde? E o que isso significa para você?Ainda estou em processo de reconhecimento da cidadania mas só o fato de percorrer esse caminho já tem sido muito significativo para mim. É uma forma de honrar a memória da minha família e de me aproximar ainda mais das minhas raízes. Cabo Verde sempre esteve presente na minha história, mesmo antes de eu compreender toda a dimensão dessa ligação. Hoje, conhecer melhor essa herança é algo que me emociona profundamente.Chegou a fazer shows com Cesária Évora, provavelmente sem saber ainda que tinha ancestrais no arquipélago. Qual era a sua relação com o país antes e como é hoje?A Cesária foi uma personalidade muito importante para a música mundial e tive a felicidade de partilhar alguns momentos com ela. Naquela época, eu ainda não tinha consciência plena dessa ligação familiar com Cabo Verde mas a música já fazia essa ponte. Hoje, olhando para trás, tudo ganha um significado ainda mais especial… a relação que antes passava pela admiração pela cultura cabo-verdiana agora também passa pelo afeto e pelo sentimento de pertencimento. É como se algumas peças da minha própria história tivessem encontrado o lugar delas.No futebol, é Flamengo: acompanha o clube, hoje treinado por um português, com paixão?Não sou aquele torcedor que sofre todos os minutos do jogo mas acompanho e fico feliz de ver o Flamengo sempre competitivo. E é muito bonito ver essa troca entre Brasil e Portugal também no futebol. Temos uma relação histórica muito forte, e isso aparece dentro de campo, nos treinadores, nos jogadores e até na forma apaixonada como vivemos o futebol. Assistiu ao Cabo Verde-Espanha? Também já segue o Vozinha e outros craques no Instagram? Acreditava que os Tubarões Azuis parariam um super favorito?Assisti e vibrei muito. O futebol é maravilhoso porque ele sempre deixa espaço para o improvável. A Espanha era favorita, claro, mas quem acompanha a trajetória de Cabo Verde sabe que aquele grupo nunca deixou de acreditar! O que mais me emocionou foi justamente isso: a confiança e a união de um país inteiro… e o Vozinha virou um símbolo dessa campanha. Acho que o mundo inteiro passou a olhar para esses jogadores com outros olhos.Imaginemos um Brasil-Cabo Verde na Copa… torce por quem?(Risos) Essa pergunta é uma armadilha! O coração é brasileiro, não tem jeito. Mas Cabo Verde conquistou um espaço muito especial dentro de mim. Então, se acontecer esse jogo, vou torcer por uma grande partida e, independentemente do resultado, vou sair feliz.Conhece algum jogador da seleção portuguesa, além do Cristiano Ronaldo? Acha que é uma boa seleção?Portugal tem uma geração impressionante. Além do Cristiano, gosto muito do Bernardo Silva, do Bruno Fernandes… É uma seleção muito forte, com jogadores talentosos. Portugal já mostrou ao mundo que pode competir de igual para igual com qualquer seleção e isso é fruto de um trabalho que vem sendo construído há muitos anos.Como foi o convite para narrar o documentário Um Milagre no Atlântico, filmado nas ilhas e que cruza futebol com música e cultura? Gostou do projeto?Foi um convite que me tocou profundamente. Quando conheci melhor a proposta do documentário e percebi que ele falava não apenas de futebol mas também de identidade, de memória e de um povo que transformou desafios em força, eu me apaixonei pelo projeto. A voz é uma ferramenta muito importante para mim e poder usá-la para contar uma história tão bonita foi uma honra! Gostei muito do resultado e me emocionei várias vezes durante o processo.. The Other Side, o seu mais recente projeto, foi o disco a que dedicou mais tempo. Tem parcerias muito interessantes e já está a fazer muito sucesso. Ainda acha que é “talvez o disco que melhor explique o Seu Jorge”, como chegou a dizer?Sim. Foram 16 anos de maturação, de encontros, de descobertas e de muita dedicação. É um trabalho muito honesto e talvez o mais próximo daquilo que sou artisticamente. Tem jazz, bossa nova, soul, tem a influência da música brasileira e uma liberdade criativa que eu sempre procurei. Trabalhar com o Mario Caldato Jr., com o Miguel Atwood-Ferguson e contar com artistas como Marisa Monte, Maria Rita, Beck e Zap Mama foi um privilégio enorme. Hoje eu vejo "The Other Side" como um disco atemporal, talvez seja mesmo o trabalho que melhor traduza quem eu sou como músico e como ser humano neste momento da vida..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Miúdos da Ponte. Torcer pelo Brasil em Portugal é isso aqui… .A Copa do Mundo vem aí. Confira onde ver os jogos do Brasil na televisão em Portugal