O Brasil esteve bem representado na penúltima noite da 26ª edição do Festival de Músicas do Mundo (FMM), na última sexta-feira (24), quando o pernambucano Otto apresentou o espetáculo "Otto Apocalíptico" no Castelo de Sines. Horas antes da apresentação, que reuniu milhares de pessoas no principal palco do festival, o cantor e compositor concedeu entrevista exclusiva ao DN Brasil, na qual refletiu sobre os encontros promovidos pelo evento, o papel da cultura em tempos de intolerância e os laços históricos entre brasileiros e portugueses.De volta a Portugal depois de alguns anos, o músico contou ter redescoberto Lisboa nos últimos dias e definiu o Festival de Músicas do Mundo como "um festival puro, no sentido mais poético da palavra". "É música boa, é o povo na rua. É um castelo como cenário e o mar como outro cenário", resumiu. Único brasileiro na programação deste ano, Otto também comemorou a presença recorrente de artistas pernambucanos no festival - em 2025, a Nação Zumbi foi um dos destaques da programação. "Pernambuco tem uma música muito forte e relevante. Acho que o Carlos [Seixas, Diretor Artístico do FMM] não está errado em nos convidar", brincou.Para Otto, festivais como o FMM - que se iniciou na sexta-feira da última semana, dia 17, em Porto Covo, antes de mudar-se para Sines - mostram que a música continua sendo um dos principais espaços de diálogo em um mundo cada vez mais polarizado. "Eu acho que nesses momentos em que a gente possa se fechar, o mundo está meio fechado, está muito fascista. A música é um lugar em que a gente consegue conquistar os corações mais duros do mundo. A poesia, a arte, a literatura têm esse papel muito sério e muito bonito", afirmou.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsAppA conversa também passou pela crescente comunidade brasileira em Portugal e pelos desafios da convivência entre os dois países. Otto lembrou uma história vivida em Lisboa há mais de duas décadas, quando um taxista reclamou da quantidade de brasileiros vivendo no país. "Eu disse para ele: 'Pior é no Brasil, que somos todos portugueses'. Aí ele respondeu: 'Tens razão'. Portanto acho que a gente vai ter que se entender", contou, antes de defender que a relação entre os dois lados do Atlântico seja construída pelo diálogo. "Portugal para o Brasil, Brasil para Portugal... a conexão é muito forte, muito bonita. Tem que ser motivo de diálogo, de equilíbrio"..O espetáculo apresentado em Sines recebeu o nome de "Apocalíptico", conceito que, segundo o cantor, não fala sobre o fim do mundo, mas sobre a necessidade de refletir sobre o momento atual. "Estamos numa fase muito difícil como humanos. O apocalipse está nesse sentido, de trazer uma mensagem de cuidado", explicou. Durante o show, Otto percorreu diferentes fases da carreira, interpretando músicas como Crua, Leite Derramado, Ciranda de Maluco, Dias de Janeiro e 6 Minutos e ainda incluiu uma homenagem ao cantor português António Variações com a música Canção de Engate.Já sobre os próximos passos da carreira, o pernambucano ainda revelou que prepara um novo disco, produzido pelo baterista Pupillo, enquanto celebra os 25 anos do álbum Condom Black. Ao despedir-se, deixou um desejo para o futuro: "Quero voltar no próximo ano. Espero estar a altura de um festival como esse", finalizou o artista. O Festival de Músicas do Mundo, recorde-se, chega neste sábado (25) ao último dia da sua 26ª edição. Considerado um dos eventos culturais mais emblemáticos de Portugal e um dos principais festivais da Europa, o FMM divide a programação entre Porto Covo e Sines e reúne artistas de diferentes partes do mundo, alternando shows gratuitos e pagos. O dia de encerramento contará com apresentações de Vitorino Salomé (Portugal), Le Trio Joubran (Palestina), Nana Benz du Togo (Togo), Orquesta Akokán (Cuba/EUA), Konono Nº1 x Montparnasse Musique (República Democrática do Congo/França) e Isam Elias (Palestina)..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Lu Araújo: "No MIMO, não exportamos apenas artistas, exportamos um modelo de cultura que nasceu no Brasil"."Para ir sem guiões". FMM Sines regressa fiel à descoberta e ao encontro entre culturas