Karim Ainouz posa para foto no Cinema São Jorge, onde decorreu a pré-estreia de seu novo filme 'Rosebush Pruning' na última semana.
Karim Ainouz posa para foto no Cinema São Jorge, onde decorreu a pré-estreia de seu novo filme 'Rosebush Pruning' na última semana. Foto: Gerardo Santos

Karim Aïnouz: "Hoje, quando alguém fala em cinema brasileiro, já existe uma simpatia espontânea"

Em Lisboa para a estreia de Rosebush Pruning, diretor cearense fala com exclusividade ao DN Brasil sobre a carreira internacional, o desejo de filmar em Portugal e o momento do audiovisual brasileiro.
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O cearense Karim Aïnouz, 60, é há mais de uma década um dos cineastas brasileiros que mais circulam pelo cenário internacional, seja para participar com filmes nacionais de festivais mundo afora, seja para dirigir produções realizadas no exterior. É o caso de seu mais recente longa, Rosebush Pruning - “poda da roseira”, em tradução literal -, que chegou aos cinemas portugueses na última semana.

Escrito por Efthimis Filippou, parceiro de longa data do renomado diretor grego Yorgos Lanthimos, o filme tem um elenco de peso, que conta com nomes como Callum Turner, Jamie Bell, Elle Fanning, Riley Keough e Pamela Anderson- A produção marca mais um passo importante do brasileiro no cenário internacional.

“O cinema brasileiro vive um momento muito interessante, em que deixou de ocupar um lugar periférico. Hoje existem vários talentos brasileiros ocupando espaços centrais no cinema mundial. Os diretores, os diretores de fotografia e os roteiristas passaram a ser protagonistas dentro da indústria anglo-saxônica. Quando alguém fala em cinema brasileiro, música brasileira ou arte brasileira, já existe uma simpatia espontânea em muitos lugares do mundo”, reflete Aïnouz em entrevista ao DN Brasil no Cinema São Jorge, em Lisboa, onde participou de uma sessão de pré-estreia de seu novo filme.

Rodado na Catalunha, Rosebush Pruning narra a história de uma família estadunidense milionária que vive isolada em uma mansão e vê sua rotina desmoronar quando o filho mais velho decide deixar a casa para viver com a namorada. De acordo com o diretor, o longa mudou bastante desde que começou a ser desenvolvido, ainda durante a pandemia.

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O filme nasceu como uma crítica à família tradicional, mas foi mudando muito ao longo do processo. Com o fim da pandemia, comecei a me interessar pela questão dos super-ricos e dos privilégios acumulados entre gerações. Isso não estava no projeto inicial e acabou se tornando um dos temas centrais do filme”, explica, referendo que a parceria com Filippou também foi determinante para definir o tom da obra.

“Ele trouxe algo que eu sempre quis fazer, mas nunca tinha tido coragem, que era trabalhar dentro da chave da sátira e do humor. Isso sempre existiu na minha vida, mas nunca tinha contaminado os meus filmes”.

O resultado é uma obra que, desde a estreia no Festival de Berlim, vem dividindo opiniões entre crítica e público, algo que Aïnouz diz encarar com alguma até estranheza. Para ele, parte dos espectadores acaba interpretando literalmente situações concebidas justamente como metáforas.

“Fico muito surpreso quando dizem que o filme é chocante. Estou justamente fazendo uma crítica àquelas situações. Tudo ali trabalha na chave da ironia. Existe uma reação quase moral ao filme, enquanto, no cotidiano, as pessoas convivem com notícias muito mais violentas sem o mesmo nível de indignação”, afirma. “Nem sempre a relação entre um filme e o público precisa acontecer pela empatia. Ela também pode nascer do desconforto, da provocação, de algo que o espectador leva para casa depois da sessão.”

A relação com Portugal

Embora Rosebush Pruning seja mais um trabalho realizado fora do Brasil, o cineasta rejeita a ideia de que tenha seguido um caminho exclusivamente internacional. Para ele, a possibilidade de filmar em diferentes países faz parte de uma trajetória construída ao longo dos anos, mas sem romper o vínculo com o cinema brasileiro. “Não gosto muito dessa ideia de que estou fazendo uma carreira internacional. Fiz um filme internacional e, logo depois, fiz Motel Destino (2023), que dificilmente poderia ser mais brasileiro. O que acontece é que hoje tenho histórias para contar em vários lugares”.

Portugal, aliás, é um destino onde Aïnouz diz sentir-se “muito perto de casa”. Durante a conversa com o DN Brasil, revelou que Madame Satã, um de seus filmes mais conhecidos, quase foi rodado em Lisboa. “Fizemos pesquisa de locações porque Lisboa poderia representar o Rio de Janeiro dos anos 1930. No fim, filmamos no Rio, mas adoraria fazer um filme em Portugal. Sou muito fã da cultura portuguesa e das cidades portuguesas. Há histórias que poderiam perfeitamente se passar aqui. O próprio Rosebush Pruning, aliás, poderia ter sido filmado em Portugal. Só não aconteceu por razões financeiras”.

Ao falar sobre o momento vivido pelo audiovisual brasileiro, o diretor atribui o reconhecimento internacional conquistado nos últimos anos a um trabalho de longo prazo, impulsionado por políticas públicas para a cultura. Às vésperas das eleições presidenciais no Brasil, marcadas para outubro, Aïnouz afirma ver o cenário com preocupação e considera 2026 um ano decisivo para o futuro do setor no país.

O sucesso do audiovisual brasileiro é fruto de cerca de 25 anos de políticas públicas. Não foi de um momento para o outro que passamos a ocupar esse espaço. É um ano absolutamente decisivo. Quando olho para a América Latina, vejo um continente cada vez mais cercado pela extrema direita, e isso me preocupa muito. Mas não vencemos o fascismo com medo. Vencemos com coragem, com valentia e com esperança”.

nuno.tibirica@dn.pt

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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