Afroturismo em Portugal: "não precisamos ter medo do que aconteceu no passado"

Carlos Humberto da Silva Filho é CEO da Diaspora.Black, startup que chega a Portugal. O objetivo? Tornar o país um destino mundial de afroturismo, mesmo que haja "resistência" em lidar com o passado.

"Não precisamos ter medo de olhar para o passado". É assim que Carlos Humberto da Silva Filho, o fundador e CEO da startup Diaspora.Black, vê as oportunidades que Portugal detém para entrar no mundo do afroturismo.

O primeiro contato oficial da Diaspora.Black com Portugal foi em 2024, quando a empresa veio na comitiva brasileira para a Web Summit. "Todos os dias nós tivemos alguma projeção nas mídias. Isso, naquele momento para a gente, nos trouxe um indicador de que havia um interesse sobre o nosso trabalho. Então, a partir daí, nós começamos a tentar validar se esse interesse se traduzia em oportunidades de mercado e de negócio", explica Carlos.

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No ano seguinte, a Diaspora.Black torna-se uma das cinco empresas globais selecionadas para uma bolsa de seis meses de incubação em Lisboa, através de uma plataforma para o setor do Turismo. "Para a gente, total surpresa, porque, de fato, a gente não tinha Portugal como mercado estratégico ainda. Embora a gente saiba que o Turismo faça parte da construção econômica desse país, tem uma participação significativa no PIB de Portugal, mas a gente não tinha identificado oportunidades para o mercado do afroturismo, que é esse segmento", recorda.

Passado o período bolsa, a Diaspora.Black decide fixar uma base definitiva em Lisboa, motivada pelo sucesso dos contatos feitos nos últimos seis meses. "A gente entendeu que Portugal é um grande oceano de oportunidade para a possibilidade de diversificar os produtos de Turismo aqui. Trazer um Turismo de experiência, de memória, que faça um sentido, que traga uma relevância, de uma contribuição social, um Turismo que seja inspiracional. Então, Portugal é um grande oceano de oportunidades, porque aqui também a gente pode considerar uma encruzilhada do mundo, dos países africanos de língua portuguesa, da Europa. Então, esse território aqui tem um potencial muito grande para desenvolver esse mercado do afroturismo e nós chegamos aqui nessa expectativa de contribuir para o crescimento desse mercado".

Carlos Humberto da Silva Filho, fundador e CEO da Diaspora.Black
Carlos Humberto da Silva Filho, fundador e CEO da Diaspora.BlackPaulo Spranger

Fundada no Rio de Janeiro, a Diaspora.Black "nasce para promover histórias, memórias, gastronomia, musicalidade. Tudo que está relacionado a essa riqueza que foi produzida pelos povos africanos que se espalharam pelo mundo", explica o CEO. "Hoje nós estamos em 18 países a partir de uma plataforma que conecta as pessoas a pacotes de viagens, caminhadas, experiências que são anunciadas nessa plataforma e que levam as pessoas à oportunidade de vivenciar essas muitas experiências turísticas que apresentam esses lugares, essas memórias, essas gastronomias", completa.

Em Portugal, o plano é servir conforme já atua nos demais países, como uma plataforma para que os operadores turísticos vendam os seus produtos, mas também fomentar a criação das experiências que destaquem a cultura ancestral africana e valorizar as que já existem.

Sobre a resistência que poderá encontrar pelo caminho, pelas questões que Portugal ainda precisa limar quando se trata de reconhecer o papel no trafico transatlântico de pessoas escravizadas, o brasileiro é categórico. "As pessoas mais jovens estão buscando mais sentido, estão mais conectadas e não querem se envergonhar da própria história, querem conhecer as nossas histórias. E aí a gente não precisa se envergonhar, ter medo do que aconteceu no passado. Pelo contrário, a gente precisa olhar para o passado para aprender, para mudar o futuro. Então esse turismo, o afroturismo, traz essa possibilidade".

O afroturismo, ou também chamado de turismo de herança, é uma tendência internacional da atualidade. "Esse movimento está crescendo na América Latina, na América do Norte, na Europa em outros países, a gente tem esse movimento crescendo bastante na França, na Inglaterra. E aqui que tem tantos ativos, é um desperdício econômico não olhar para essas memórias e para esses patrimônios. Então, a gente também trabalha essa perspectiva do quanto isso pode gerar receita para Portugal. Entendendo que essas histórias são grandes ativos também turísticos e econômicos que podem diversificar até mesmo os produtos de turismo no país".

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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