O chef Robson Oliveira, do Bono Cucina.
O chef Robson Oliveira, do Bono Cucina. Foto: Gabriel Vieira

Brasileiro consolida trajetória em Portugal e aposta em restaurante dedicado à cozinha italiana clássica

Após o sucesso do Bono Lisboa, Robson Oliveira inaugurou o Bono Cucina, defendendo uma gastronomia “limpa”, sem misturas e distante do italiano internacional.
Publicado a

Robson Oliveira foi, sem dúvidas, um dos grandes personagens brasileiros da cena gastronômica lisboeta em 2025. Depois de consolidar o Bono Lisboa no centro da cidade, o pesquisador e chef nascido em Brasília decidiu dar um passo mais específico. Abriu o Bono Cucina na região das Avenidas Novas, um restaurante dedicado exclusivamente à gastronomia italiana, com a proposta de fugir do chamado “italiano internacional” e aproximar o público daquilo que, segundo ele, de fato é comido na Itália.

“Existe dois tipos de restaurantes italianos: o italiano internacional e o italiano que se come na Itália”, resume em conversa com o DN Brasil. “Na Itália, não se mistura muita proteína com a massa. A massa é o molho, a carne vem depois", o famoso conceito do primi e secondi piatti, lógica que nem sempre corresponde à expectativa de quem entra num restaurante italiano fora do país da bota.

A trajetória de vida de Robson nos ajuda a compreender essa defesa quase pedagógica da cozinha italiana. Antes de empreender em Lisboa, viveu dez anos em Paris, onde estudou gastronomia e trabalhou em restaurantes. Voltou ao Brasil para dar aulas sobre história da gastronomia e, mais tarde, chegou a Portugal para um mestrado em ciências gastronômicas.

A ideia inicial era ficar cinco meses. Ficou. Encontrou uma cidade em transformação, com novos chefs, novos restaurantes e um público mais aberto a experiências menos óbvias. “Lisboa estava se desenvolvendo muito, ficando mais cosmopolita. Foi uma boa oportunidade", recorda.

Pasta fresca no Bono Cucina.
Pasta fresca no Bono Cucina.Gabriell Vieira.

No Bono Cucina, essa leitura do momento da cidade se transforma em método, com Robson falando em “comida limpa” para definir a filosofia da casa. O conceito vai além do discurso técnico e envolve a escolha rigorosa dos ingredientes, a rejeição a produtos ultraprocessados e a recusa de elementos que “disfarçam” o sabor original. “Tudo que entra aqui tem que ser limpo. Limpo no produto, na origem e até energeticamente”, explica. A ideia, conta, é que o cliente saia da mesa leve, sem a sensação de peso comum a pratos excessivamente carregados.

Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp

A comida

O cardápio, como disse o chef, respeita a ordem clássica da refeição italiana e com pratos mais difíceis de encontrar fora do país da bota: entre as entradas, aparecem a panzanella toscana (€9), salada rústica com pão artesanal, tomate, pimentos e manjericão, o supplì alla romana (€9), croquete de arroz recheado com ragù de carne e mozzarella, e o vitello tonnato (€14), com vitela fatiada, molho de atum e alcaparras.

Nos primeiros pratos, massas e risotos assumem o protagonismo, com preparações como o pappardelle al ragù di ossobuco (€22), o spaghetti alle vongole (€20) e o risotto allo zafferano com salsiccia (€21). O cappelletti recheado com camarão, limão negro e alho negro (€22) é a receita mais autoral da casa e funciona como assinatura do projeto.

Risotto e vinho tinto é combinação certeira na casa.
Risotto e vinho tinto é combinação certeira na casa. Gabriell Vieira.

Nos principais, a cozinha mantém o mesmo registro contido e direto. A saltimbocca alla romana (€26), a pollo in umido (€21) e a maiale alla milanese (€18) chegam acompanhadas de guarnições simples, como purê de batata (€5), espinafre salteado (€5) ou batatas assadas (€5), sempre sem teatralidade.

Nas sobremesas, dois tiramisù encerram a refeição como manda a tradição: o tiramisù classico (€8) e o tiramisù al pistacchio (€9), feito com pistache siciliano. Há ainda opções como affogato al caffè (€6) e gelato do dia (€3).

Segundo Robson, a dinâmica do Bono Cucina reflete também um olhar moldado pela experiência de viver fora. Robson fala em colaboração como quem já entendeu que, longe de casa, nada se sustenta sozinho e tenta aplicar uma forma de trabalhar diferente do habitual no restaurante, no qual emprega, entre outras nacionalidades, diversos imigrantes brasileiros.

Equipe do Bono Cucina.
Equipe do Bono Cucina.Gabriell Vieira.

Apesar do sucesso do Bono Lisboa e de um início promissor do Bono Cucina, ele faz questão de deixar claro que empreender em Portugal não é um exercício romântico. Abrir um segundo restaurante envolve risco, investimento alto e uma leitura constante do público.

Nesta nova casa, reafirma que a resposta passa pela coerência, com menos adaptação ao gosto fácil, mais fidelidade à proposta. O resultado é uma cozinha italiana sem atalhos e um projeto que conversa diretamente com a trajetória de brasileiros que, em Portugal, escolheram não apenas trabalhar, mas criar raízes e tentar dar algo novo ao país que decidiram viver.

O Bono Cucina fica na Rua Filipe Folque 19A, na região de Picoas. O restaurante abre de terça a domingo, das 13h às 23h (aos sábados e domingos das 15h às 23h). Às segundas-feiras está fechado.

nuno.tibirica@dn.pt

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
O chef Robson Oliveira, do Bono Cucina.
Almadrava: brasileiros apostam no marisco e em vinhos biológicos em novo restaurante com vista para o Tejo
O chef Robson Oliveira, do Bono Cucina.
Sult: o restaurante carioca que atravessou o Atlântico para conquistar Portugal
Diário de Notícias
www.dn.pt