O nome do cargo usado é geralmente é no masculino: mestre de bateria, o que já diz muito sobre quem ocupa a função. No bloco Colombina Clandestina, o correto é escrever "mestra". Quem está à frente dos batuques é uma mulher, Andrea Freire, a fundadora do bloco, o maior do país. Em entrevista ao DN Brasil, a imigrante destaca os desafios que enfrenta.Como surgiu o seu envolvimento com o Carnaval e a fundação do bloco?A Colombina foi com certeza um dos primeiros blocos, mas certamente o movimento que deu propulsão ao que a gente está vivendo hoje, oito anos depois, com essa cena de Carnaval em Lisboa, saindo com 15 blocos em 2025. Quando a gente criou a Colombina, não tinha Carnaval, não tinha cena de Carnaval como data identitária, não tinha agenda, não tinha nada. Então, o meu envolvimento com o Carnaval em Lisboa foi desde que eu cheguei aqui, que eu cheguei no final de 2016, em setembro e em fevereiro já estava rolando o Carnaval. No Brasil o meu envolvimento com o Carnaval já era muito forte, porque eu tinha muita influência do Carnaval de Salvador por conta de família, em Floripa também tinha um Carnaval mais simples que era de escola de samba, depois fui para São Paulo e peguei a época do surgimento daquele boom dos blocos de Carnaval também, uma cena muito urbana que influencia que a gente faz hoje. Como é ser mulher e mestra de bateria?Eu só posso falar por mim, mas pelas experiências que eu já tive ao longo desses anos com a Colombina e com a passagem de outros mestres, eu me tornei mestre e esse é o terceiro Carnaval. É ingrato, vou botar bem a palavra ingrato. Porque o que você faz é um pouco sua obrigação, é tido pelos outros como obrigação, porque a mulher sempre acaba sendo colocada naquela caixa de ou mãe, ou servil, ou de apoio. Então, quando você tem o protagonismo, ou você pode ser vista como buscando atenção ou é mesmo arrogante, enquanto quando você consegue fazer tudo e tudo funciona e tudo vai bem, não passa da sua obrigação, não tem uma vanglorização a respeito da imagem.E não que seja uma busca, mas é algo que você vê facilmente acontecendo quando é um fundador de um bloco ou um mestre de um bloco, não tem nem comparação. O nível de gratidão das pessoas, de exaltação da pessoa, por parte não só da mídia, por parte de outros profissionais, mas também por parte mesmo de integrantes do bloco. E eu acho que é algo inconsciente, algo também que as pessoas têm isso em mente, mas acontece de forma natural.Eu acho que cada profissional, cada mestre, cada fundador tem seu percurso, tem a sua especialidade e suas características. Eu sou uma mestre que ainda sou muito recente e ainda estou aprendendo também a reger. É um percurso longo também da música, para você entender o seu perfil, mas eu sei que a minha especialidade é a performance artística, é a interação com o público, é o efeito que você gera no público, é como você faz ele sentir, como isso retorna para ele.Para mim, a parte musical é importante, mas não é o meu principal ponto. O principal ponto é as pessoas estarem ali tocando seguras e passar, principalmente para a bateria, a motivação, a força para fazê-los darem tudo até o fim, para se divertirem muito, mas darem tudo. E a minha regência vai nesse ponto, fazer com que a gente tenha um repertório, que tenha um começo, um meio, um fim, um storytelling muito bem contado para gerar esse sentimento no público, essa partilha de energia..Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!.Como é liderar um bloco que se posiciona por casos como feminismo, LGBTQ+ e apoio aos imigrante? A Colombina, tem três pilares de atuação, que estão ligados às ODS, que são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e que direcionam, desde o início, desde a sua fundação, todas as atividades, que é a luta feminista, a diversidade e viver à rua.E é sempre mais desafiante, porque quando você tem um projeto que está direcionado diretamente a causas sociais e Objetivos de Desenvolvimento Sociais, você tem um cuidado, precisa de um equilíbrio entre pagar as contas e não ser um projeto comercial. E isso é muito sensível. Primeiro, porque a gente tem que ter um cuidado redobrado, por exemplo, nas músicas que a gente toca, nos eventos que a gente participa, nas parceria que fechamos e que nos apoiam, porque tudo pode ser questionado. Tem que ter esse cuidado, porque a gente precisa andar com os parceiros que pensem da mesma forma que a gente, que lutem pelo que a gente luta também.Penso que a Colombina gera um resultado real. Tanto de transformação, se a gente chega na assinatura desse protocolo com a Embaixada e Câmara, tem muito trabalho da Colombina ao longo desses anos de reivindicação da rua, de enfrentamento, de acolhimento e tudo que a gente vem fazendo. Tem isso para fora, tem isso para o público. Quantas mensagens a gente recebe depois falando, na pandemia mesmo, o Carnaval foi o melhor dia do meu ano, depois tudo fechou, a pandemia chegou, sabe? Para os integrantes também, porque a gente tem, o projeto tem uma influência enorme na vida das pessoas. E isso dá um trabalho a mais, é mais uma camada, de cuidado e de atenção extra, que é necessário ter. Eu acho que é muito importante, que todos os projetos deveriam ter pelo menos uma causa social, uma bandeira para levantar, sim, porque o que a gente faz arte também mescla com essa dimensão e o carnaval é político, então é muito necessário se posicionar.A gente tem pessoas que estão com a gente há seis anos, sete, tem pessoas que fizeram pedido de casamento no Carnaval e agora, dois, três anos depois, estão indo desfilar com a barriga grávida. Não é apenas a folia, não é apenas o tocar na rua, é realmente uma criação de histórias, uma história enorme que consolida todas essas, que é a história da Colombina de transformação dessa cena cultural imigrante em Lisboa, porque é uma grande transformação que a gente está fazendo hoje, é realmente revolucionário. Mas também dessas micro histórias, que são histórias, são as principais que devem ser os grandes protagonistas, que são as histórias individuais de cada um que vivem ali, que vivem isso, que partilham e que são muitas, muitas, muitas, muitas. E são elas que vão virar memória depois, são elas que vão ser contadas e é para elas que a gente faz.Que desafios enfrenta enquanto mulher e imigrante?Os desafios inerentes ao carnaval são comuns a todos, a todos os blocos, grupos, isso não muda. Claro que muda de acordo com a dimensão de cada um. A Colombina é o maior em termos de estrutura, principalmente, difere completamente dos outros blocos, porque a gente leva uma estrutura muito grande para a rua. Por isso, é um nível de complexidade absurdamente maior e de custos também, o que gera um desafio gigante para a gente conseguir fazer o Carnaval acontecer sem um coletivo independente, né? Hoje estamos num momento bem frágil, financeiro, por conta disso, esse é um grande desafio. Pagar o projeto é um grande desafio, mas eu acho que ele é comum a todos.Agora, fazendo esse recorte enquanto mulher, especialmente, porque imigrantes muitos são, mas eu acho que também, tendo em vista as outras mulheres também que eu tenho contato no Carnaval, eu acho que a grande questão é sempre o seu ouvida. Se posicionar, ser devidamente respeitada. Eu acho, e para mim, nesse sentido, o grande é poder falar realmente o que você pensa, realmente expressar a sua opinião, poder se colocar e ser aceita e ser acolhida. Eu acho que esse é o principal, uma mulher poder se expressar da forma como ela é. Ela não precisar diluir o seu discurso, ela não precisar suavizar o seu discurso, ela poder simplesmente ser, colocar a sua fala como ela simplesmente vem. Porque esse papel, novamente, esse lugar da mulher, do perfil a ser ocupado, da forma como ela deve agir e quando ela deve falar ou não, é algo que para mim não cabe. Isso acaba gerando muito confronto e sempre vai gerar. Você poder estar ali e simplesmente expressar a sua personalidade como ela é, é um grande ponto. Claro que a gente está falando sempre de respeito com os outros e o outro com você, mas não permitir que te calem, acima de tudo. amanda.lima@dn.pt.O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Embaixada do Brasil e Câmara de Lisboa fecham acordo para viabilização da festa na rua .Luta, resistência e festa: no Blocu, em Lisboa, Carnaval e política andam lado a lado