Anchieta Távora trabalha com troca de janelas, procedimento que ameniza o frio nas casas.
Anchieta Távora trabalha com troca de janelas, procedimento que ameniza o frio nas casas.DR

Troca de janelas para melhorar aquecimento nas casas vira nicho de brasileiros

A situação até pode virar piada entre os imigrantes: “Passo mais frio dentro do que fora” é um ditado comum, mas, como a adaptação à falta de conforto térmico exige paciência e gastos extras, há quem encontre no cenário incômodo - e perigoso para a saúde - a chance de empreender. Serviços de caixilharia têm garantido trabalho a quem aposta neste segmento.
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Faz pouco mais de um mês que o cearense Anchieta Távora abriu a própria empresa de caixilharia e começou prestar serviços de instalação de janelas na região de Lisboa e na Margem Sul. Seja em novos empreendimentos, ou substituição de equipamentos antigos, o brasileiro garante que trabalho não falta e o motivo é o mesmo. “As pessoas não querem sentir frio dentro de casa e também querem economizar bastante com a energia, a procura tem sido grande por parte de todos, brasileiros, portugueses, outros estrangeiros, por causa agora dessas remodelações nos centros urbanos”, conta ao DN Brasil o empresário, que tem a sede da empresa na Costa da Caparica.

O frio que se sente dentro das casas em Portugal é um problema grave, que afeta entre dois e três milhões de pessoas, segundo dados recentes da Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT) reportados pelo Diário de Notícias recentemente. Muitos brasileiros chegam ao país e ficam surpreendidos com a falta de aquecimento das casas, algo comum em outros países europeus.

De acordo com o último Censo, 30% das casas no território português não têm um sistema de aquecimento eficiente. Construções antigas e más condições de isolamento térmico nos imóveis são alguns dos fatores que dificultam a vida de sofre com o frio. Além disso, em 2023, Portugal foi o Estado-Membro da União Europeia (UE) com a porcentagem mais alta de “pobreza energética”, um conceito que define a impossibilidade de se garantir uma temperatura adequada (seja no frio ou no calor) dentro de casa: 20,8% da população vivem nesta condição, de acordo com um relatório divulgado pela Comissão Europeia.

É por isso que “o choque é grande”, conta ao DN Brasil o produtor de eventos Edvar Brasil. O brasileiro ainda morava em Londres quando decidiu que o próximo destino na vida de imigrante seria Lisboa. Trocou a terra da rainha pela de Camões durante o outono de 2021 e conta ter sentido o impacto imediato. “Foi complicado. Lá eu estava costumado com a climatização geral em casa e eu não tinha aquecedor aqui quando cheguei. Foi muito difícil. Eu acordava às 8h da manhã, mas não conseguia levantar, de tão frio. Lá é mais frio do que aqui, mas em casa não”, conta , num cenário semelhante ao que muitos brasileiros enfrentam ao se mudar para Portugal.

Como Edvar optou por alugar um quarto em um apartamento dividido, as medidas para amenizar o frio sempre foram mais imediatas. “A primeira coisa foi comprar um aquecedor, edredons, cobertores. Eu mantinha o quarto sempre fechado nos dias muito frios e arejava para evitar mofo e bolor”, relembra, o que implicou gastos extras logo à chegada ao país. “O problema era que o quarto aquecia, mas o resto era gelado, então tinha que andar bem agasalhado dentro de casa”, completa.

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A reclamação não é apenas dos brasileiros. “Estou acostumado com o frio do centro da Itália. O inverno português sempre foi mais agradável em termos de luz, o sol parece que aquece mais, as temperaturas são mais altas. Mesmo assim, o grande problema, ainda por cima para mim, que trabalho só de casa, é ter que lidar com o gelo polar dos apartamentos, que não têm calefação”, relata ao DN Brasil Francesco Catapano. O italiano e a namorada, a brasileira Dayane Araújo, trabalham de maneira remota e, além das adaptações para aquecer um pouco mais o ambiente em casa, investem em alternativas possíveis para tornar o inverno mais ameno. “A gente tenta ficar um bom tempo na rua. Ir trabalhar ao sol, em praças, parques, bibliotecas. A gente anda com muita roupa dentro de casa e faz chá o dia inteiro. O Francesco foi à Itália e, na volta, sentiu, porque as casas lá são climatizadas”, conta Dayane ao DN Brasil. “E a gente nem podia reclamar. O dono do apartamento até que investiu nos vidros, mas, ainda assim, é uma casa gelada”, completa.

Casal precisa ficar de roupas quentes em casa e tomar chá "o dia inteiro" pS6ara se aquecer.
Casal precisa ficar de roupas quentes em casa e tomar chá "o dia inteiro" pS6ara se aquecer.DR

Eficiência energética

Ter janelas eficientes, segundo o empresário Anchieta Távora, é o modo mais efetivo de se garantir uma mudança positiva no conforto térmico de um imóvel. “As janelas das construções portuguesas são velhas, de alumínio ou madeira. Janelas de PVC, com vidros duplos ou triplos, possuem também uma tecnologia de “respiração” que garante que o frio excessivo não entre, nem o calor, quando é verão”, explica.

A medida requer investimento e pesa no bolso, gasto nem sempre planejado pelo imigrante. Por exemplo, instalar cerca de sete janelas em um T2, de PVC, com vidros duplos, ronda os seis mil euros. Em casas maiores, com janelas mais amplas, o serviço pode rondar os 10 mil euros. O empresário garante que o investimento inicial pode ser pesado, mas compensa a longo prazo. “Mas os custos energéticos baixam. As pessoas querem economizar. Elas não querem usar o ar-condicionado, aquecimento a gás, preferem trocar por uma janela de qualidade, que se paga ao longo do tempo”, explica Anchieta.

O mineiro Alex Oliveira trabalha em uma empresa de remodelação de imóveis em Lisboa e região e também faz caixilharia. A procura pelo serviço já é citada na hora do orçamento. “O pessoal tá substituindo bastante as janelas de alumínio e colocando logo as de PVC. Meu patrão sempre explica que a troca deixa a casa mais quentinha”, destaca ao DN Brasil.

A troca de janelas acaba sendo a medida mais prática e acessível, explica Alex, para aumentar a eficiência energética das casas. “O isolamento térmico total é um procedimento maior. É bem mais caro, envolve piso, revestimentos, trocando a janela já dá uma quebra no gelo”, afirma, ressaltando que o serviço tem tido bastante demanda. “Ali nos Olivais, um mesmo apartamento trocou oito janelas”, cita.

Medidas oficiais

O Governo reconhece que melhorar a eficiência energética das habitações é uma questão urgente. No início de 2024, Portugal apresentou a Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2023-2050 (ELPPE), um conjunto de medidas para apoiar a população e pelo qual reconhece que “a pobreza energética afeta o bem-estar social, a qualidade de vida, a saúde e produtividade, não sendo exclusiva das famílias em carência econômica, incluindo aquelas que adotam práticas de restrição de uso de energia devido a custos”, conforme afirmou a Agência para a Energia, responsável pela implementação da estratégia. No entanto, pouco se sabe do avanço das medidas até agora.

Em contrapartida, o Governo anunciou a criação do programa E-LAR, pelo qual pessoas com o perfil de situação vulnerável vão receber um montante para comprar eletrodomésticos que melhorem o aquecimento de casa, como aquecedores. Vai ter direito ao apoio quem já é beneficiário da tarifa social de eletricidade ou gás, concedida pela Segurança Social.

Estes apoios são liberados para quem está inscrito e já possui o seu número, o NISS, além de cumprir outros requisitos, ponto que pode gerar dificuldade para brasileiros e outros imigrantes que esperam por respostas da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA). A obtenção do NISS foi um dos mecanismos afetados pelas mudanças nas políticas para imigração do atual Governo.

Atualmente, o número só é concedido a quem apresenta um contrato de trabalho à Segurança Social, mas as empresas não contratam quem não tem NISS. No entanto, o Governo ainda não informou quais serão os critérios exatos para participação no programa E-LAR, que vai ter 50 milhões de euros de recursos para serem distribuídos ao longo de 2025.

caroline.ribeiro@dn.pt

Este texto está publicado na edição impressa de hoje (06) do Diário de Notícias.

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