O relógio marcava 84 minutos. A Inglaterra vencia a Argentina por 1 a 0 e parecia ter um lugar garantido na final do Mundial. Bastaram sete minutos para mudar tudo. Aos 85, Enzo Fernández empatou. Aos 92, Lautaro Martínez virou o jogo e colocou a Argentina na decisão contra a Espanha. Confesso que, durante alguns instantes, também vi um pequeno sonho meu escapar. Gostaria de assistir a uma final entre Inglaterra e Espanha. Não apenas pela qualidade das duas seleções, mas porque foram esses os primeiros países que escolhi para desenvolver um projeto voltado à formação de jovens atletas. Brincadeiras à parte, a escolha nunca teve a ver apenas com o futebol que praticam. Inglaterra e Espanha oferecem algo que, na minha opinião, explica boa parte do sucesso das suas escolas de formação: transformaram disciplina, método e cultura de treino em ativos tão importantes quanto o talento. No futebol, talento chama a atenção. Mas é a disciplina que sustenta uma carreira. Essa é a principal lição que observei nas primeiras turmas do projeto Vou Jogar na Europa, realizadas em julho, primeiro na Espanha e depois na Inglaterra. Os jovens evoluíram tecnicamente, taticamente e fisicamente. Mas a maior transformação aconteceu longe da bola. Eles descobriram que o futebol profissional não é construído apenas nos noventa minutos de um jogo. Começa muito antes, na forma como cada treino é encarado, na capacidade de ouvir, repetir, corrigir, descansar e voltar no dia seguinte para fazer tudo outra vez. Sonhar é importante. Talento também. Mas desenvolver a disciplina para fazer todos os dias aquilo que precisa ser feito, independentemente da vontade, é o que separa quem apenas sonha de quem realmente constrói uma carreira. Talvez nenhum jogador simbolize melhor essa ideia do que Cristiano Ronaldo. Independentemente das discussões sobre quem foi o maior de todos os tempos, poucos atletas transformaram a disciplina num diferencial competitivo como ele. Durante mais de duas décadas, construiu uma carreira sustentada por uma dedicação quase obsessiva aos treinos, à preparação física, à alimentação e à recuperação.O talento abriu-lhe portas. A disciplina permitiu-lhe permanecer entre os melhores durante tanto tempo. Foi justamente essa procura por um ambiente de excelência que me levou a conhecer o treinador Kwaku Ohemeng, em Manchester, onde atua. Tudo começou quando acompanhei a evolução do meu filho, João Pedro, numa clínica de alta performance em Espanha. Percebi que ele tinha dado um salto importante e me perguntei até onde poderia chegar se continuasse a ser desafiado daquela forma. A resposta veio acompanhada de muito esforço. Houve dias de cansaço, frustração e até lágrimas. Os treinos eram mais intensos do que tudo o que ele conhecia. Em compensação, vieram também ganhos evidentes na intensidade, na tomada de decisão, na leitura do jogo e na maturidade dentro de campo. Hoje, João Pedro representa o Hércules, de Alicante, e já teve a oportunidade de treinar ao lado de atletas ligados a alguns dos maiores clubes europeus. Não acredito que exista uma fórmula capaz de fabricar jogadores profissionais. O futebol continuará a depender de talento, personalidade, oportunidades e até de um pouco de sorte. Mas acredito profundamente que a disciplina aumenta as possibilidades de qualquer jovem realizar o seu potencial. A Copa do Mundo voltou a mostrar isso. Grandes jogos são decididos por talento. Grandes carreiras, quase sempre, são construídas pela capacidade de fazer bem, durante muitos anos, aquilo que a maioria desiste de fazer quando o entusiasmo passa. É essa lição, muito mais do que qualquer técnica ou esquema tático, que espero que os jovens levem consigo quando regressam de uma experiência de formação na Europa..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.