Os danos com o vendaval Cristiano Ronaldo / FPF

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A falta de planejamento pode custar caro a qualquer negócio. E o assunto desta semana em Portugal, a saída de Cristiano Ronaldo da seleção portuguesa, às vésperas da partida contra a Dinamarca, pela Liga das Nações, depois de um desentendimento com o treinador Jorge Jesus, exemplifica muito bem isso. 

Objetivo aqui é concentrar o debate na gestão da Federação Portuguesa de Futebol a respeito da situação, sem entrar no mérito. Somente nas primeiras 24 horas após a confusão e a “aposentadoria forçada” de Cristiano Ronaldo, a instituição perdeu um milhão de seguidores nas redes sociais. Tudo porque empurrou com a barriga um problema que já não era de hoje.  

A contribuição de Cristiano Ronaldo para o futebol português é inegável. Seja do ponto de vista esportivo seja do ponto de vista de projeção e financeiro. Basta olhar para os resultados, os números e o faturamento da seleção portuguesa, antes e depois do jogador.  

A relação durou 20 anos. Não tenho o dado concreto, mas me arrisco dizer que poucas seleções cresceram tanto em representatividade no Mundo quanto a seleção portuguesa neste período e de forma tão consistente. O perfil da seleção só em uma das redes sociais chegou a ter quase 25 milhões de pessoas – o dobro da população total do país. E houve também conquistas inéditas dentro de campo: venceu a Eurocopa em 2016 e duas Ligas das Nações da Uefa. 

A verdade é que com 41 anos, há algum tempo que o jogador, dentro das quatro linhas, já não entrega o mesmo resultado que ainda entrega fora delas. Pessoalmente, Cristiano Ronaldo não soube ouvir o tempo e não entendeu que na vida tudo tem um começo, um meio e um fim. Dado o nível de competitividade e autoexigência imagino, que para ela seja difícil aceitar que seu tempo enquanto jogador está terminando e que a seleção portuguesa já não depende do que atualmente ele consegue entregar dentro de campo. Pelo contrário, do ponto de vista esportivo, ele passou de motor a freio do time. O problema não é chegar ao fim, mas como se comportar perante o fim.  

Mas o objetivo aqui é falar da Federação Portuguesa de Futebol, enquanto instituição que, assim como uma empresa, precisa de faturamento para sobreviver, deve controlar despesas e, principalmente alavancar receitas.  

Assim como acontece a várias empresas, a Federação tinha nas mãos uma crise para administrar motivada pela necessidade obrigatória de passar por um processo de sucessão de liderança, mas com alguns agravantes. Teria que fazer essa sucessão mesmo sabendo que não há um sucessor à altura (dificilmente haverá no futuro) e que o atual líder não pretendia deixar o cargo, apesar de já não conseguir executar todas as funções de antes e necessárias para o cargo que ocupa. 

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A Federação, por sua vez, não conseguiu preparar o terreno para que o processo acontecesse de forma menos turbulenta, e ainda transferiu a responsabilidade para terceiros. De maneira nada aleatória, escolheu um treinador que historicamente não se deixa dobrar e o colocou para resolver o problema em seu lugar. E isso, obviamente não poderia terminar bem.  

E olha que tudo poderia ter sido diferente. Dados o temperamento e a postura de Cristiano Ronaldo nunca seria uma tarefa fácil, mas uma boa gestão de fim de ciclo com o jogador – respeitando sua história, exaltando sua contribuição para a seleção, mas também lembrando-o de que ele já não tem mais 29 anos - poderia mantê-lo como ativo principal da instituição. Deprecia-lo como foi feito praticamente jogou por terra, pelo menos por enquanto, a possibilidade de mantê-lo por perto, gerando receita, emprestando sua notoriedade e contribuindo para manter o interesse de torcedores do mundo inteiro pela seleção portuguesa. 

Por enquanto, a Federação Portuguesa está salva. Os contratos com os patrocinadores estão em vigor até 2030 e os atuais resultados positivos dentro de campo, neste início da era Jorge Jesus, contribuem para aliviar a tensão. Ao contrário de uma empresa, a Federação e a seleção movimentam a irracionalidade e a paixão com a vantagem de não terem concorrentes diretos ou indiretos. Agora, se a federação fosse uma empresa – e fosse influenciada pelas regras de mercado – teria talvez assinado o próprio atestado de óbito. 

Agora, é aguardar pelos próximos capítulos dessa novela que ainda tem um longo enredo e, acredito, reviravoltas pela frente. 

O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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