O Portugal que ficou barato, mas só para os estrangeiros ricos

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Antes que me cancelem, preciso dizer: eu vou revelar para vocês um Portugal que eu ando e por favor, não finjam que não conhecem. Eu sou moradora da Baixa-Chiado. E, sinceramente, há dias em que eu acho que já não falo português. Falo uma língua híbrida, confortável, internacional, onde o “obrigada” convive pacificamente com o “brunch” e o “natural wine”.

A verdade é simples: o único Portugal que ainda é barato é o Portugal criado pelos estrangeiros. E, acreditem, Portugal ainda nos enlouquece, para o bem e para o mal.

Um amigo americano, por exemplo, entrou em colapso existencial ao descobrir que uma Imperial custa dois euros aqui, enquanto nos Estados Unidos são oito dólares. Basicamente, ele tornou-se alcoólatra por essa oportunidade de mercado. E não, não é exagero: Portugal é capaz de fascinar qualquer um com esses pequenos “milagres” do quotidiano.

Mas ainda há um Portugal que continua com preços “de Portugal”. Porém, é preciso saber onde entrar. É o Portugal da vida gourmet. Das degustações prolongadas. Das feiras com vegetais biológicos aos sábado no Príncipe Real, com preços de banana (como dizemos no Brasil). Aliás, ali estão as melhores amoras doces desse país!

Dos taurinos existenciais e eu me incluo nesse grupo, que vivem para o prazer estético do prato seguinte. Dos bom-vivants que transformaram segunda-feira num conceito.

Aqui, as pessoas parecem saídas de um casting perdido de um filme do Woody Allen: ligeiramente neuróticas, profundamente interessantes e impecavelmente vestidas às quatro da tarde, de uma terça feira, em um quiosque bonitinho.

Têm tempo. Têm pele bem tratada. Têm corpos de ioga e pilates.
E ainda pagam sessões a preços que, milagrosamente, continuam “portugueses”. Milagre? Não. Organização financeira internacional.

Praça das Flores: o roteiro do prazer

A Praça das Flores é uma espécie de microcosmo da felicidade gourmet. Cada esquina oferece experiências que fariam qualquer foodie desmaiar de alegria. Então vamos às dicas foodies?

Burrata com pesto que provavelmente causa orgasmo gastronômico instantâneo. O preço é para quem pode pagar, mas, sinceramente, quando o prazer é desse tamanho, o preço deixa de ser relevante. O lugar também é convidativo para encontrar um bom partido, bonito, rico e internacional. 

Vinhos naturais servidos com histórias de produtores apaixonados, solos vulcânicos e fermentações que parecem sorrir para quem bebe. A carta de vinhos é um guia para a felicidade líquida, você se pergunta se não foi transportado para um laboratório secreto de mixologia. Com gente bonita. Copos por apenas 7 euros. Um paraíso na Terra. Se compararmos com os vinhos horríveis de NY com valores á partir de 15 eurecas + gorjetas. Black Sheep é a Disney! Por acaso, não nego, poderá me encontrar lá. 

Entre outros bares e cafés da praça, tudo se transforma numa coreografia sofisticada: um copo aqui, outro ali, um prato que vira jantar, um jantar que vira madrugada. Cada passo, cada garfada, é cuidadosamente coreografado para maximizar prazer e minimizar qualquer lembrança de stress ou burocracia.

Comida moderna, orgânica, menus híbridos, pequenas surpresas a cada garfada. Entre pratos, vinhos e risadas, criou-se um microclima gastronômico onde Portugal parece reinventar-se a cada esquina.

Os problemas existem. Só não moram aqui

Sim, Portugal tem problemas: saúde, burocracia, salários, filas infinitas e um certo cansaço estrutural. Mas na Baixa esses problemas são quase abstratos. São uma nuvem distante, terceirizada para outra realidade geográfica e social.

A saúde pública? Lamentamos imenso, mas alguém há de tratar disso.
A burocracia? Um contabilista simpático resolve. O caos mundial? Está muito longe, provavelmente do outro lado do Tejo.

Criou-se uma sociedade alternativa onde tudo é lindo, saboroso e administrável. Um pacto silencioso de que viemos para Lisboa não para sofrer, mas para performar prazer. Aqui, o compromisso é outro: sermos fugitivos elegantes do stress global. Problemas? Existem. Mas são terceirizados.

Um carnaval com teor de fado

Este Portugal não tem glitter. Tem leveza. É um carnaval contido, com trilha sonora de fado suave e copo de vinho biodinâmico.

E o mais fascinante?

Continua barato. Barato para quem chega com salário de fora.
Barato para quem converte moeda forte em qualidade de vida tropical europeia. Barato para quem pode escolher viver Portugal como experiência e não como sobrevivência.

Talvez o verdadeiro luxo não seja o vinho natural nem o pilates às onze da manhã. Talvez o verdadeiro luxo seja poder viver em Portugal sem ter que viver o Portugal real. E esse, ironicamente, é o único Portugal que ainda cabe no orçamento, mas não dos Portugueses. Aí eu pergunto: Os portugueses primeiro?

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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