Em 2025, o número de imigrantes em Portugal atingiu níveis historicamente elevados, evidenciando uma transformação social cada vez mais visível no quotidiano do país. De acordo com a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), no ano de 2024 a nacionalidade brasileira manteve-se como a principal comunidade estrangeira residente, representando 31,4% do total, enquanto a nacionalidade indiana passou a ocupar a segunda posição. Ao nível regional, os maiores aumentos verificaram-se entre cidadãos provenientes dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), do subcontinente indiano e da Europa. Esta diversidade reflete-se de forma crescente nas interações diárias, na escola, no trabalho e nas expressões da cultura popular.No entanto, este aumento não ocorre sem tensões. Nos últimos anos, ao mesmo tempo que cresce o número de imigrantes, assistimos também a um aumento de discursos xenófobos no país. Este fenómeno surge num contexto marcado por uma narrativa anti-imigração cada vez mais presente, amplificada pela presença da direita nacionalista na política e por movimentos neonazis nas redes sociais, juntamente com as novas políticas de restrição de fronteiras.No meu trabalho de mestrado, distinguido com menção honrosa no 3º Prémio FIBE, analisei precisamente o papel da comunicação social na construção destas narrativas. O contraste entre integração e rejeição não é apenas percecionado, é também refletido na forma como os media representam as comunidades imigrantes. A partir da análise de notícias da Agência Lusa, identificadas através de palavras-chave como “migração”, “imigração” e “imigrantes”, foi possível observar padrões. Os temas mais frequentes estavam associados a áreas como Política, Governo, Sociedade, Demografia, Crime, Polícia ou Direitos. Estes dados revelam uma tendência que contribui para uma perceção pública centrada em conflitos e gestão política. Por contraste, as áreas associadas a cultura, entretenimento e artes, apresentaram uma expressão bastante reduzida.Paradoxalmente, aquilo que presenciamos fora do espaço mediático é o consumo generalizado de cultura estrangeira por grande parte da população. Muitos dos elementos culturais trazidos por imigrantes são vastamente consumidos e valorizados em Portugal, onde a música, gastronomia e tendências digitais atravessam fronteiras com facilidade e são recebidas de braços abertos. Desta forma, parece existir um fenómeno mundial de acolhimento e exclusão simultânea dos imigrantes. Por exemplo, o mesmo se passa do outro lado do oceano, onde os norte-americanos querem a qualquer custo acabar com a comunidade latina no país, mas não vivem sem consumir a comida mexicana do Taco Bell e celebrar os ‘taco tuesdays’.Partindo desta discrepância coloca-se, então, uma importante dúvida: como pode uma sociedade rejeitar pessoas e, ao mesmo tempo, abraçar a sua cultura?Desconsiderando a influência dos “imigrantes do bem”, como os britânicos e os norte-americanos, é evidente que a cultura criada por aqueles frequentemente demonizados pela sociedade e pelo discurso político está em ascensão.Nas festas e nas rádios portuguesas, ouve-se kuduro angolano, funk e pagode brasileiros. Na gastronomia, consomem-se açaí, brigadeiro, kebab e sushi. No entanto, no campo político, há votos em partidos que defendem ativamente a saída do país justamente de quem contribui para essa riqueza cultural.A língua é outro espaço onde esta contradição se manifesta. A variação do português falado por imigrantes, especialmente brasileiros, é muitas vezes alvo de críticas e preconceito, um fenómeno que pode ser entendido como xenofobia linguística. Ainda assim, essa mesma variação linguística está presente nos conteúdos consumidos por portugueses diariamente, desde músicas a redes sociais. Ao rejeitar sotaques ou expressões, rejeita-se também a legitimidade cultural de quem os utiliza, contribuindo para um afastamento social que vai além da linguagem, que está, ou deveria estar, em constante evolução. Se Portugal rejeita os imigrantes mas continua a consumir a cultura trazida por estes, talvez esteja na altura de reconhecer, valorizar e integrar na sociedade as pessoas que a tornam possível. Este afastamento retira a oportunidade de todo um país ter novas experiências gastronómicas, linguísticas, culturais, mas mais importante, sociais. Temos muito a aprender com a diversidade cultural.