Pela janela, observo um céu empoeirado que ainda faz o sol perdurar enquanto o outono não vem. Penso nos muitos significados do 7 de Setembro que se avizinha, no mundo distópico das próximas eleições e sinto o Brasil que se move em mim, muito presente, apesar da distância física.Já escutei que alguns imigrantes não acompanham mais a vida do país que parece ter ficado apenas nas lembranças, servindo como destino de visitas esporádicas. Questiono-me se algum dia terei esse desprendimento. Não creio. Ainda me importo com tudo o que acontece por lá, valorizo o voto, acompanho as notícias (tento, pois o ritmo brasileiro exige fôlego) e converso com amigos para perceber suas variadas visões de mundo.Não há consenso. Da descrença à perplexidade, da alegria ao cinismo, mesmo com a exaustão vai-se vivendo.Tantas versões de nós já habitaram algumas fases do Brasil. O da criança alheia às responsabilidades e cobranças, o jovem movido pela esperança e fé em um futuro que prometeram ser melhor, o adulto que vive um dia por vez, acredita e se decepciona em círculos de maior ou menor intensidade. Gerações que atravessaram conquistas importantes. O emigrante que mudou por uma variedade de razões, mas ainda experimenta uma conexão sempre que escuta o nome do seu país. O próximo dia 7 marca a independência de uma nação que, entre violências e protestos, ainda anseia por figuras míticas de pai, justiceiro, salvador. Rescaldo de um longo processo histórico que corre em paralelo com a busca por uma ressignificação do passado. Enquanto isso, o país ferve com a transição política vindoura, e propostas eleitorais saídas de uma narrativa de universo fantástico bagunçam a lógica vigente.É tudo convivendo e disputando espaço nessa balança incerta que ora pesa para o pessimismo, ora pende para a euforia. Em meio ao caos, a gente também celebra o Brasil em outros países, pela cultura, representatividade, inovações, empreendedorismo e diálogos intercontinentais. E o que fazer com essa tal independência para além do Dia da Independência? Cuidemos do feijão com arroz sem perder de vista o Brasil que carregamos em nós, onde quer que estejamos. Usemos os privilégios que cada um dispõe a favor da luta coletiva por mais dignidade, realização de sonhos, oportunidade, mobilidade social.É preciso ser um sujeito no processo de mudança, pensar e agir para além do próprio umbigo. Lembremos de cultivar dentro de nós a ética, o respeito e o bom senso, como aquela planta que requer atenção, cuidados e um ambiente adequado para crescer e ter vida longa.Além de ser brasileiro, ser mais humano é uma tarefa que não dá para terceirizar, delegar ou pedir folga. E também não tem prazo de validade a cada eleição..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.