Nós, assim como Cármen Lúcia, mulheres avulsas

A ministra Cármen Lúcia, a alma mais lúcida e respeitável do STF, está sozinha na Corte desde 2023, quando sua colega Rosa Weber se aposentou.
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Nós, mulheres avulsas, estamos há anos representadas no Supremo Tribunal Federal (STF), a maior Corte da Justiça brasileira, por uma mulher avulsa. Avulsa, neste sentido, completamente sozinha. Sem homens para incomodar em casa, mas cercada de homens que incomodam o país inteiro, deixando-a sozinha na jaula de incoerências do STF. Cármen Lúcia nos representa em todos os sentidos.

A ministra Cármen Lúcia, a alma mais lúcida e respeitável do STF, está sozinha na Corte desde 2023, quando sua colega Rosa Weber se aposentou. Desde então, apesar das inúmeras campanhas encabeçadas por diversas entidades, nunca mais conseguimos que uma mulher fosse indicada ao cargo no Supremo.

Eu mesma me empenhei fortemente em uma dessas campanhas há alguns anos. A jurista Soraia Mendes, uma das mais respeitadas do Brasil, recebeu o meu apoio e de diferentes entidades e coletivos. Percorremos gabinetes de senadores em busca de apoio prévio, mas, ao final, o nome da jurista não chegou nem aos finalistas das listas que repousam sobre a mesa do presidente da República. Seguimos avulsas.

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Nesta semana, quando o Supremo Tribunal Federal realizou a sessão que seria para julgar um dos seus ministros, Alexandre de Moraes, respingado diretamente pelos enroscos criminais do banqueiro Daniel Vorcaro, a solitude da ministra voltou a ser pauta. Cármen Lúcia não escondeu a vergonha que sentia de estar diante da Corte masculina, maculada por casos de corrupção e protegida pelas garras do patriarcado.

Cármen Lúcia falou que foi abordada em um voo e que mulheres demonstraram solidariedade pelo fato de ela ser uma mulher avulsa.  O termo não é apenas por ela ser a única entre 9 ministros homens (já que uma vaga permanece aberta por disputas masculino-políticas há quase um ano). O avulsa, aqui, é mais amplo.

A ministra é uma solteira convicta. E nunca se envergonhou disso. Pelo contrário. Ser solteira, avulsa, é uma forma de transgressão ao sistema, que atrela as mulheres ao casamento, à maternidade, aos cuidados da família. Cármen Lúcia, a avulsa, não se casou. Não tem filhos. Nos corredores do Supremo, é chamada carinhosamente de Tia Carminha. A tia Carminha é a nossa luz em meio à nebulosa de vergonha que toma conta do poder brasileiro.

Iara Lemos e a ministra Cármen Lúcia.
Iara Lemos e a ministra Cármen Lúcia.Foto: Direitos reservados

E por que ela nos representa tanto? Porque as mulheres solteiras incomodam. Eis o fato.  Sem marido, ou sem filho para que possam ser captados pelo sistema criminoso que permeia a política brasileira, Cármen Lúcia é deixada de lado. 

Daniel Vorcaro, o banqueiro preso pela maior fraude financeira do país, que administrava no mínimo quatro mulheres, enquanto lotava aviões com “suíças” para satisfazer o desejo sexual dos homens de poder da República que ela queria comprar, nunca mandou uma mensagem para a ministra. Cármen Lúcia, a avulsa, é incorruptível. Ela também não tem parentes próximos para manchar sua trajetória.

O machista convicto Daniel Vorcaro, que tratava as mulheres como mera mercadoria, não tinha ninguém para comprar no entorno da ministra. Por esse motivo, Cármen Lúcia, a avulsa, não é influenciável. Mas ela está lá. E nos representa.

Cármén Lúcia integra um grupo em crescimento no Brasil. A das solteiras. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 48,7% da população brasileira é solteira, categoria que engloba quem nunca casou, além de divorciados, separados e viúvos.

Somos 6,3 milhões de solteiras a mais do que solteiros no Brasil. As solteiras estudam mais. As solteiras têm mais independência financeira. As solteiras não se contentam com pouco. As solteiras querem paz. As solteiras não se corrompem pelos filhos que querem mais, nem pelos maridos que usam de “suíças” e depois pregam o discurso da família politicamente correta. As solteiras são avulsas. Obrigada, ministra Cármen Lúcia, por nos representar.

O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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