Identidade luso-brasileira ou “volta para a tua terra”?

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A mobilidade humana entre Portugal e Brasil revela uma tensão persistente: a identidade luso-brasileira, frequentemente mobilizada como discurso de integração, convive com experiências concretas de estranhamento, hierarquia e exclusão. A pesquisa Imigração e Identidade: Um estudo sobre famílias portuguesas no Rio de Janeiro, reconhecida internacionalmente no 3º Prémio FIBE, revela o contramponto de como imigrantes portugueses chegados ao Rio de Janeiro, entre 1945 e 1974, reconstruíram afetiva, cultural e socialmente Portugal no Brasil, mantendo tradições enquanto se integravam à sociedade carioca. Essa experiência histórica permite recolocar uma questão central: até que ponto a identidade luso-brasileira produziu pertencimento efetivo e até que ponto encobriu assimetrias entre os dois povos?

Na atualidade, essa tensão reaparece em dois movimentos simultâneos: o crescimento da imigração brasileira em Portugal e o aumento da presença de portugueses no Brasil como turistas. Ambos ampliam o debate sobre relações históricas, culturais e políticas entre os dois países, mas também expõem contradições entre a retórica da proximidade luso-brasileira e as práticas sociais.

A identidade luso-brasileira foi formulada e reafirmada em diferentes contextos históricos conforme os interesses políticos, culturais e econômicos de Brasil e Portugal, que marcam o quotidiano dos migrantes.

No Brasil, essa identidade conviveu com a lusofobia, entendida como expressão de tensões históricas em torno da figura do português colonizador. Durante o Estado Novo varguista, a política nacionalizadora intensificou controles sobre comunidades estrangeiras, incluindo os portugueses, que passaram a ocupar uma posição ambígua: ao mesmo tempo valorizados como herdeiros de uma matriz civilizatória, enquanto submetidos a formas de hostilidade social e política.

Pelo lado português, a identidade luso-brasileira também respondeu a interesses estratégicos: manter influência simbólica, preservar vínculos econômicos e sustentar uma narrativa de continuidade histórica com o Brasil. A integração Portugal-Brasil foi frequentemente construída por meio de um imaginário afetivo e familiar: Portugal como pai, irmão e amigo, ainda que essa narrativa não eliminasse conflitos, hierarquias e interesses de Estado.

No contexto da globalização, as migrações contemporâneas desafiam essa narrativa integradora. A pesquisa sobre trajetórias de brasileiros em Portugal (em andamento) evidencia que a circulação entre os dois países não se traduz automaticamente em acolhimento, reconhecimento ou pertencimento. Ao contrário, processos de exotização, estereotipação e vulnerabilidade social mostram que muitos brasileiros ocupam uma posição marcada por exploração, desvalorização e não pertencimento. A frase “volta para a sua terra” sintetiza essa contradição: mesmo inserido de forma social e familiar em Portugal, o imigrante brasileiro pode continuar sendo percebido como estrangeiro permanente.

Resta averiguar o que está por baixo da divulgação da “volta para a tua terra”, que marca o brasileiro como “eterno estrangeiro”, alguém que nunca pertence de fato, mesmo estando há anos no país, mesmo tendo filhos e netos nascidos ali. Muitos dos entrevistados na referida pesquisa informam que é comum ouvir expressões depreciativas em relação aos brasileiros e brasileiras. As narrativas mostram que ser imigrante brasileiro(a) em Portugal é uma identidade marcada pela dor. É comum se expressarem com desabafo: “Imigrante aqui vem para sofrer mesmo”.

Como explicar a questão sensível dos processos de exotização de brasileiros em Portugal? Um fenômeno social de efetivação dos estereótipos que, certamente, tem relação íntima com a sua produção. Ou seja, vai além da mera constatação da sua existência. A História demonstrou a construção da lusofobia no Brasil e as consequências desta construção foram descritas e denunciadas através das narrativas das Histórias de vida dos imigrantes portugueses no Brasil. Na atualidade percebe-se que, na prática, a população brasileira estereotipada em Portugal, se relaciona com as imagens construídas no imaginário hegemônico português de uma forma ativa.

Os imigrantes brasileiros não apenas estão sujeitos às imagens estereotipadas produzidas por determinados agentes de poder; eles também participam ativamente dos processos de exotização. Dessa forma, não se ajustam a maneira proclamada nos acordos e tratados. Ao contrário da integração e solidariedade, ser imigrante brasileiro (a) em Portugal, significa ocupar um lugar social de exploração, desvalorização e não pertencimento.

Rever as polêmicas em torno das migrações é urgente porque a retórica da amizade histórica não basta para responder às desigualdades produzidas pela mobilidade contemporânea. A identidade luso-brasileira só terá relevância política e humana se for capaz de superar a distância entre tratados, discursos diplomáticos e experiências concretas de migrantes que ainda enfrentam exclusão, precarização e não pertencimento.

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