Hoje também é Dia da Mulher

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Quando a ideia de celebrar um Dia da Mulher surgiu em 1909, nos Estados Unidos, ainda o sufrágio feminino era excecional, com poucos países a reconhecerem o direito de voto e mesmo assim com limitações várias. As próprias americanas só em 1920 puderam votar pela primeira vez numas presidenciais. O pioneirismo em termos de conceder o direito de voto às mulheres coube à Nova Zelândia, em 1893, e o reconhecimento do direito de, além de elegerem, poderem ser eleitas deu-se na Finlândia em 1907.

Ambos os países se orgulham desse pioneirismo na construção da cidadania e fazem-lhe justiça, pois elegeram já mulheres para a chefia do governo e, no caso da Finlândia, também para a chefia do Estado. As mais recentes foram, aliás, dois nomes bem conhecidos mundo fora. Falo de Jacinda Ardern e Sanna Marin.

Nascida no movimento socialista americano, logo adotada também pelos correlegionários europeus, a ideia do Dia da Mulher acabou por impor-se na Rússia, e a partir da formação da União Soviética expandiu-se, mais tarde, para os países do Bloco Comunista.

Finalmente, em 1977, as Nações Unidas oficializaram o 8 de março como Dia Internacional da Mulher, com o compromisso assumido pela organização de promover os direitos plenos das mulheres, e não apenas em termos de voto, mesmo que o voto, nas democracias, seja a forma de garantir que ninguém deixa de fazer ouvir a sua voz.

Em Portugal, quando a ONU oficializou a data, já o sufrágio era verdadeiramente universal. Mas era, sublinhe-se, uma conquista recente. Apesar da coragem cívica de Carolina Beatriz Ângelo, que votou em 1911, a Primeira República não reconheceu o direito de voto às mulheres. O Estado Novo reconheceu-o parcial e gradualmente, mas nunca de forma completa, até pela natureza ditatorial. E foi com a Revolução de 1974 que a igualdade política se conquistou. A 25 de abril de 1975, exatamente um ano depois da Revolução dos Cravos, realizaram-se as primeiras eleições livres e universais da História de Portugal. As portuguesas, tal como os portugueses, mostraram uma adesão à democracia que ficou expressa numa participação eleitoral acima dos 91%.

Giorgia Meloni e Sanae Takaichi, no o Japão. "Ambas são primeiras-ministras pioneiras, prova de que na maioria dos países, evidentemente com mais força nas democracias, o caminho feito desde 1909 é imenso, embora continue a ter de ser percorrido, pois não terminou."
Giorgia Meloni e Sanae Takaichi, no o Japão. "Ambas são primeiras-ministras pioneiras, prova de que na maioria dos países, evidentemente com mais força nas democracias, o caminho feito desde 1909 é imenso, embora continue a ter de ser percorrido, pois não terminou."Reinaldo Rodrigues

Hoje, mulheres líderes no mundo deixaram de ser uma exceção, e com absoluto mérito próprio. Recordo-me de, quando comecei a escrever sobre este tema, me deparar quase sempre com dinastias políticas, pois Sirimavo Bandaranaike, do Sri Lanka, a primeira mulher a chefiar um governo no mundo, era viúva de um político, tal como a argentina Estela Perón, a primeira presidente, o era. E havia também as filhas de políticos, como a indiana Indira Gandhi ou a paquistanesa Benazir Bhutto, carismáticas, mas educadas desde o berço para serem poderosas.

A israelita Golda Meir e a britânica Margaret Thatcher eram então os grandes exemplos de que não havia limites para mulheres de talento e de coragem, mesmo sem serem de famílias influentes.

Na Europa, logo a seguir a Thatcher, veio a portuguesa Maria de Lourdes Pintasilgo, primeira-ministra por nomeação presidencial, mas com um currículo, antes, durante e depois do cargo, que faz dela um exemplo inspirador num país que tem cada vez mais mulheres em destaque em todas as áreas da sociedade, mesmo que ainda não tenha eleito uma chefe de governo ou uma Presidente da República. Lá chegaremos, é a minha convicção.

Fala-se também muitas vezes de os Estados Unidos ainda não terem tido uma presidente (Hillary Clinton esteve perto), e o mesmo se pode dizer da Rússia ou da China. Mas é certamente uma questão de tempo, como em Portugal.

A Alemanha teve Angela Merkel como chanceler, o Brasil já teve a presidente Dilma Roussef, o México tem agora Claudia Sheinbaum. E no G7, o grupo dos países mais ricos, quando se sentam à mesa os presidentes e primeiros-ministros, a Itália está representada por Giorgia Meloni e o Japão por Sanae Takaichi. Ambas são primeiras-ministras pioneiras, prova de que na maioria dos países, evidentemente com mais força nas democracias, o caminho feito desde 1909 é imenso, embora continue a ter de ser percorrido, pois não terminou.

Como pai de um rapaz e de uma rapariga, só posso ambicionar que a sociedade ofereça as mesmas oportunidades de realização e sucesso a um e a outra. E que essa seja a regra no meu país. Uma luta permanente, juntamente com outras lutas, para conseguirmos uma sociedade mais justa e mais próspera. Tenho a certeza de que é esse o desejo de António José Seguro, que hoje toma posse como Presidente da República, como confio que seja a vontade de todos aqueles que nos governam.

Gostaria também que a igualdade de oportunidades, de meninos e meninas, fosse regra no mundo. Como diz a própria designação do 8 de Março, trata-se do Dia Internacional da Mulher. Essa igualdade passa, a começar pelo mais básico, por acesso igual e de qualidade à Saúde e à Educação. E pela igualdade salarial. Pensemos como há tanto por fazer. Esta é uma luta a ser feita por homens e mulheres. Quando se vota, no 8 de Março e em todos os outros dias.

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