Escolha ou agoritmo?

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Há alguns dias, experienciei um teatro imersivo com atores brasileiros e portugueses. A peça, que está na segunda temporada em Lisboa, tem rapidamente os ingressos esgotados, confirmando o interesse das pessoas por interação e surpresa. A proposta é que o público se coloque em cena, participe da história, sendo convocado a fazer escolhas, reagir às intervenções com boas doses de reflexão sobre a vida.

O ponto de partida da narrativa era demonstrar como funcionam os algoritmos e de que modo eles influenciam nossas decisões. Será que escolhemos por nós mesmos ou tudo já está condicionado para não exercermos o livre-arbítrio? De alguma maneira, é possível romper a lógica atual que nos separa por bolhas de supostas preferências? Uma hora e meia de espetáculo provocativo despertou algumas conclusões.

Quando soube da peça, ainda na primeira temporada, confesso que fiquei receosa e decidi que não iria assistir, pois o desconhecido pode gerar desconforto e eu não estava disposta a passar por constrangimentos. Dessa vez, recebi um convite e resolvi arriscar. Não me arrependi. A imersão é conduzida de maneira fluida e convidativa de forma que, quando percebemos, já estamos compartilhando impressões com a plateia.

Entre os questionamentos do roteiro, abordou-se os efeitos decorrentes do excesso de opções disponíveis na atualidade. Como interfere nos relacionamentos, na saúde mental, nas oportunidades de se provar o novo. A variedade facilita ou dificulta a vida? Os pesquisadores pelo mundo têm se dedicado a estudar o chamado paradoxo da escolha, que envolve a fadiga e sobrecarga que tantas alternativas podem desencadear no ser humano.

É bica, cimbalino, café cheio, curto, com cheirinho, pingado, garoto, meia de leite, americano, galão, chávena quente, sem princípio, expresso, cortado. Isso se referindo apenas a café. Confesso que já pedi uma coisa pensando ser outra, por falta de explicação, pela pressa de quem servia. Pode ser natural, grego, com frutas, com cereais, açucarado, magro, vegano, proteico, sem lactose. São alguns caminhos para comprar o iogurte mais adequado.

E quando por fim decidimos, ainda vem à cabeça aquela dúvida: “Tenho certeza absoluta?”. O medo de selecionar mal, o sofrimento envolvido pela ilusória obrigação da escolha correta, faz com que muitos paralisem ou prefiram “o de sempre”. O conforto e segurança em não “errar” podem ser limitadores.

Às vezes, imputamos ao processo de escolha uma sensação de vida ou morte, com seriedade desproporcional ao que está em pauta. Em outras, não damos a devida importância ao que precisa ser deliberado.

Escolher é um exercício que pode ser incentivado desde a infância, permitindo que a criança atravesse processos de frustração e desenvolvimento emocional. É também um aprendizado que vem com a maturidade, quando estamos com o discernimento e a leitura de cenário mais calibrada, e buscamos informação credível para balizar nossas escolhas.

Saber distinguir os níveis de decisões e suas consequências é um passo relevante na elaboração pessoal e caminhada coletiva. Quanto mais significativa for uma escolha, em geral, ela irá repercutir em um universo mais amplo, exigindo que assumamos critérios para além da inclinação individual.

Optar entre abacaxi, mamão ou pera não tem a mesma gravidade do que escolher um candidato ao governo, por exemplo. Apesar de muitos de nós tratarem as situações com igual displicência. Entretanto, essa mesma decisão poderá fazer a diferença no que milhares de pessoas terão no prato, em um breve futuro.

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