Chega de Aventura

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Há momentos na história em que as sociedades se encontram numa encruzilhada perigosa. Frustradas com problemas reais, cansadas de promessas não cumpridas, as pessoas tornam-se vulneráveis a vozes que prometem soluções simples para questões complexas. É precisamente nestes momentos de fragilidade coletiva que surgem figuras políticas que, como predadores experientes, sabem exatamente o que dizer para conquistar a confiança de quem busca desesperadamente por mudança.

André Ventura e o Chega representam este fenômeno perigoso em Portugal. Tal como um abusador que conquista a confiança das suas vítimas através de palavras doces e promessas sedutoras, este tipo de política de extrema direita aproxima-se do eleitorado com um discurso que parece oferecer exatamente aquilo que se quer ouvir: soluções rápidas para a corrupção, para a criminalidade, para os problemas económicos. Tudo soa tão simples, tão direto, tão sedutor.

Mas recordemos os padrões que conhecemos demasiado bem. O pedófilo que se aproxima de crianças inocentes com promessas de brincadeiras e guloseimas, jurando que jamais lhes faria mal. O companheiro violento que, no início do relacionamento, era gentil, atencioso e protetor, antes de revelar a sua verdadeira natureza destrutiva. O aliciador que promete às jovens sonhadoras uma carreira de modelo, apenas para as transformar em escravas. Todos estes predadores partilham a mesma estratégia: identificam vulnerabilidades, oferecem exatamente aquilo que a vítima deseja ouvir e, quando a confiança está conquistada, revelam-se pelo que realmente são.

A política de extrema direita segue este mesmo manual de manipulação. Identificam o descontentamento legítimo da população — e ele existe, é real, é justificado. Há problemas de corrupção, há falhas no sistema, há desigualdades que precisam ser combatidas. Mas em vez de apresentarem soluções sérias e fundamentadas, oferecem bodes expiatórios, amplificam o medo, criam inimigos internos e externos, e vendem a ilusão de que tudo seria resolvido se apenas lhes déssemos poder suficiente.

A estratégia passa ainda pela criação e disseminação deliberada de fake news. Problemas reais são exagerados até à deformação; problemas inexistentes são inventados para alimentar o pânico moral; estatísticas são manipuladas; contextos são omitidos. Tudo isto serve o propósito de criar uma sensação de caos iminente, de invasão, de perda de identidade — e, claro, de posicionar o líder populista como o único capaz de nos salvar desta catástrofe fabricada.

Olhemos para o histórico. Diversos correligionários do Chega têm problemas com a justiça, envolvimentos questionáveis, passados que deveriam levantar alarmes. Não há critério rigoroso na seleção de candidatos, não há filtros éticos verdadeiros. O que importa é a lealdade ao líder, não a competência ou a idoneidade. Este desprezo pela seriedade institucional deveria ser, por si só, motivo de profunda preocupação.

Compreende-se a frustração de quem vota no Chega. Compreende-se o desejo de protestar contra um sistema que parece surdo às necessidades reais da população. Mas escolher apoiar o mais perigoso dos candidatos não é protesto, é auto-sabotagem coletiva. É como incendiar a própria casa para se vingar do senhorio. É entregar as chaves do país a quem demonstra, repetidamente, desprezo pelas instituições democráticas, pela separação de poderes, pelos direitos fundamentais.

Existem outras formas de protesto. Formas construtivas, que não colocam em risco as conquistas democráticas duramente alcançadas após décadas de ditadura. Podemos exigir mais dos partidos tradicionais, podemos apoiar forças políticas que apresentem alternativas sérias, podemos envolver-nos mais ativamente na vida cívica, podemos fiscalizar, pressionar, organizar-nos. Protestar é legítimo e necessário — mas não cometendo a insanidade de dar poder a quem usa esse descontentamento como combustível para projectos autoritários.

A história já nos ensinou esta lição vezes sem conta. Sociedades em crise que escolheram a via do autoritarismo populista não encontraram soluções, encontraram catástrofes. As promessas simples revelaram-se mentiras complexas. Os salvadores tornaram-se opressores. E quando se deram conta do erro, era tarde demais.

Portugal merece melhor. Merece um debate político sério, fundamentado em fatos e não em manipulações. Merece líderes que apresentem soluções realistas e não ilusões perigosas. Merece critério, competência e respeito pelas instituições democráticas. Merece, enfim, que não caiamos novamente nas armadilhas de quem promete mundos e fundos enquanto prepara o caminho para o abismo.

Já chega de aventuras perigosas disfarçadas de soluções salvadoras. É tempo de escolhas conscientes, informadas e verdadeiramente comprometidas com o bem comum. A democracia é frágil e preciosa — não a entreguemos a quem demonstra, diariamente, não compreender o seu valor nem respeitar os seus princípios.

Empresário brasileiro com negócios no Brasil e Portugal

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