Dizem que momentos de grandes conflitos e profunda instabilidade costumam contribuir para que grandes mudanças na ordem mundial aconteçam. Mas essa ideia, vista de longe, esconde o preço pago para atravessar o processo. Custa muito dinheiro, negócios não resistem, infraestruturas e cidades são destruídas e, sobretudo, vidas são perdidas.Ao tentar estabelecer um paralelo entre conflitos de diferentes épocas, há um detalhe que sempre me chama a atenção: o papel de figuras centrais nos conflitos com grande poder de persuasão e uma convicção inabalável de que a sua visão deve prevalecer. Em muitos casos, é difícil distinguir onde termina a causa que dizem defender e começa o ego e a ambição pessoal pelo poder.Veja o exemplo dos dias atuais. À frente das duas principais potenciais nucleares (Estados Unidos e da Rússia), estão líderes com trajetórias e objetivos diferentes, mas cujos discursos são de poder e supremacia nacional. A defesa da soberania é legítima. O problema começa quando ela serve para justificar decisões que ignoram compromissos internacionais, a autonomia de outros povos e causam consequências que ultrapassam as próprias fronteiras.Enfrentamos tempos difíceis. Não acredito que os conflitos em curso possam ser reduzidos à personalidade de dois líderes, nem que todos tenham a mesma origem ou sirvam ao mesmo interesse. Ainda assim, seria ingênuo desconsiderar o peso das decisões políticas individuais num cenário de disputa por poder e influência. Quando essas decisões ampliam tensões já existentes, a incerteza espalha-se muito além dos territórios envolvidos.Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!O mundo de hoje é muito diferente daquele das duas guerras mundiais. A comunicação é imediata e os mercados estão profundamente integrados. Por isso, mesmo que a expressão “guerra mundial” não descreva de maneira histórica o momento que vivemos, os seus impactos econômicos e sociais são de alcance mundial.Naturalmente que quem vive sob a ameaça constante de bombas, tiros e drones à porta de casa tem uma camada a mais de preocupação. Mas, em um mundo em que energia, matérias-primas, produção, fornecimento e transporte dependem de trocas internacionais, um conflito a milhares de quilômetros afeta o custo e a rotina de pessoas e de empresas em qualquer lugar.No contexto do comércio internacional, alterações nas rotas marítimas, quebra no fornecimento de combustíveis, fretes mais caros e incerteza nos prazos podem comprometer o custo da operação. O empresário faz as contas com um determinado custo e, quando a mercadoria finalmente chega, encontra outra realidade. E, mais cedo ou mais tarde, esse impacto chega ao consumidor, com reflexos direto no valor do seu dinheiro e no custo dos produtos, do pão à passagem de avião.Independentemente da área de atuação, para empresários empreendedores, esse é um momento que exige especial cautela, mas não decisões desesperadas. Empresas de diferentes setores enfrentam pressão sobre os custos de produção e de operação. Nesse contexto, acompanhar os números do negócio, rever contratos, avaliar alternativas de fornecimento e proteger o fluxo de caixa deixa de ser apenas uma boa prática. Passa a ser uma forma de resistir a riscos que nenhuma empresa consegue controlar sozinha.Também é preciso cobrar respostas dos governos locais. Em Portugal, como em outros países, as medidas precisam ter efeito direto na vida cotidiana das famílias e das empresas. Da perspectiva de quem enfrenta custos crescentes sem, no entanto, deixar de ter as mesmas obrigações e necessidades diárias, pedir para que deem carona, que usem mais o transporte público ou que acelerem menos o carro para economizar gasolina é muito pouco.Mesmo em uma situação adversa e com muitas variáveis que fogem à capacidade de resolução, o que a classe empresarial e a população em geral esperam do Governo são mais do que conselhos. São iniciativas consistentes, com impacto direto no bolso e na rotina do dia a dia.A verdade é que independentemente dos próximos capítulos, não sabemos quanto tempo a maré permanecerá agitada, nem quando a pressão sobre os preços e as condições de oferta irá diminuir. Por isso, cautela, serenidade e visão são as palavras para serem praticadas no momento..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Precisamos de menos ruído e de mais decisões.A guerra fica longe. A fatura chega sempre cá