Um julgamento, versões e verdade

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Era um domingo escaldante e somente Wagner Moura para me tirar de casa naqueles quase 40 graus. Há tempos queria ver o ator em teatro e, por obra da sorte e alerta de uma amiga, tinha comprado o último bilhete de um lote extra para a peça “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo.” Uma tarde de expectativas que transformou o Centro Cultural de Belém em um tribunal, precedendo a eliminação do Brasil da Copa do Mundo horas depois pela Noruega.

No caminho da ida, enquanto aguardava na parada de ônibus, reparei em duas mulheres que em pouco tempo se “descobriram” brasileiras indo para a mesma peça. Juntei-me ao coro comentando: “Então, vamos as três”. Com a espontaneidade conterrânea, conversamos sobre coincidências, o que ouvimos sobre a apresentação, comparando ainda os verões brasileiro, português e francês.

A carioca e a mineira pareciam mais resistentes ao calor do que esta cearense. Suposição minha ao vê-las mais dispostas e falantes, ao passo que eu me amparava no ponto de ônibus, sobrevivendo ao mormaço que subia do asfalto prestes a derreter as estruturas. Nosso trio resistia com leque, garrafa d 'água, o colorido nas roupas e sorrisos.

Já no leve frescor do transporte (às vezes, penso em apanhar um ônibus só por conta do ar-condicionado), sentei-me ao lado da senhora do Rio de Janeiro e aproveitei para conhecer sua experiência imigrante. É sempre uma oportunidade de escutar mais uma versão da vida fora do país de origem. São verdades individuais perpassadas pelos espaços, acessos e pessoas que se encontra.

No caso, a tal senhora vivia em uma aldeia no outro lado do Tejo, um povoado com pouquíssimos vizinhos e horas de deslocamento até Lisboa. Após seis anos morando em Portugal, ela disse estar desanimada por não encontrar mais o clima amistoso de quando chegou. Vem planejando voltar para o Rio depois das eleições de outubro. “Não tenho mais paciência nem idade para ser destratada”, revelou.

Entre silêncios e algumas observações, chegamos ao nosso destino onde cada uma iria assistir a sua versão da peça.

“Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo” foi idealizado por Christiane Jatahy e Wagner Moura, e tem como ponto de partida o texto do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. A peça original conta a história do médico Thomas Stockmann que descobre uma grave contaminação nas águas de uma estância balnear pela fábrica de tratamento de couro da região. Ao tornar o fato público, o médico é declarado “inimigo do povo”, pois a pequena cidade tem no turismo termal a principal fonte econômica.

O espetáculo encena um momento posterior à peça, no qual Stockmann (interpretado por Wagner) pode apresentar em tribunal seus argumentos e defesa para recuperar sua honra. Na promotoria, seu irmão Peter, presidente da câmara da cidade, contestava as intenções e a índole do acusado. No palco, também participou um júri formado por 11 pessoas, sorteadas dentre 50 pré-inscritos da plateia.

“A verdade acabou, existem versões e não fatos”, abriu Stockmann o seu discurso já anunciando que as próximas horas exigiriam do público bem mais do que uma observação passiva. Fomos convocados a revisitar debates clássicos e muito atuais sobre política, ciência, interesses coletivos e individuais, meio ambiente, o papel da imprensa e as rupturas familiares diante de disputas econômicas.

Em um filme apresentado como prova no julgamento, a esposa de Stockmann perguntou: “De que adianta a verdade se a gente não consegue sobreviver?” A dúvida expôs a fricção entre o ideal e o vivido, colocando à prova até onde vão os limites individuais em prol de uma causa quando somos confrontados com a falta.

Em outra altura, Stockmann recusou um testemunho que poderia favorecê-lo afirmando que não precisava de ninguém abonando sua ética, seu caráter. Isso ele faria por si mesmo. Lembrei-me da filósofa brasileira, Lúcia Helena Galvão, quando reflete sobre o que é verdadeiro e o que é falso. Em vídeo, ela indaga: “Quando eu estou com outro ser humano, em que momento ele está sem máscara e eu também e temos um contato verdadeiro?” 

Já se encaminhando para o final, quando os jurados votavam em segredo, um homem se levanta na plateia e grita: “Senhor Peter, senhor Peter”, ao que responderam do palco ser aquele o momento decisivo - hora do veredito. O espectador não se retraiu e questionou se a personagem tinha se banhado nas águas do balneário depois de saber sobre a contaminação. 

Burburinho. Inquietude. A fina linha entre ficção e realidade parecia dissolver-se.

No painel, o resultado ia se revelando. Para aquele encontro de domingo, nove jurados decidiram que Stockmann não era “inimigo do povo”. Já outras duas pessoas optaram por outra versão.

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