Às 17h32 do dia 17 de junho de 1966, um Boeing 707 da TAP pousou no Galeão. Chamava-se Santa Cruz. O nome era uma homenagem a Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que 44 anos antes tinham chegado ao Rio na primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Uma semana depois, a companhia fazia a primeira ligação direta entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Já havia um ensaio disso desde 1960, o Voo da Amizade, feito em parceria com a Panair do Brasil. Mas foi ali, em junho de 1966, que a ponte virou ponte de verdade.Sessenta anos depois, fico pensando no que aquele avião carregava de fato. Passageiros, claro. Só que também carregava uma ideia: a de que dois países que falam a mesma língua não podiam continuar tão longe um do outro. E durante muito tempo estiveram. Falávamos de irmandade nos discursos e vivíamos de costas na prática.Presido a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira e posso dizer, sem exagero, que nenhum acordo comercial substitui uma coisa muito simples: gente sentada frente a frente. Negócio se faz com presença. Aperto de mão, almoço que se estende, a conversa depois da reunião, que às vezes vale mais que a reunião. O empresário brasileiro que abre operação em Lisboa, o investidor português que aplica recursos em São Paulo, o estudante de intercâmbio, o avô que atravessa o oceano para conhecer o neto. Todos dependem dessa ponte que a TAP foi consolidando voo após voo.Os números contam uma parte. A companhia começou com uma rota para o Rio e hoje voa para quinze cidades brasileiras. Quinze. Do Rio a Manaus, de Porto Alegre a São Luís do Maranhão. Mais de dois milhões de passageiros por ano cruzam o Atlântico entre os dois países, recorde que deve cair de novo em 2026. Nenhuma outra companhia europeia chega perto dessa presença no território brasileiro.Mas o que me interessa é o que os números não medem. A TAP foi, para gerações de brasileiros, a porta de entrada na Europa. Para muitos portugueses, foi o reencontro com a família que emigrou, ou a descoberta de um Brasil que só conheciam pela música e pela novela. A comunidade brasileira em Portugal, hoje a maior comunidade estrangeira do país, cresceu em boa parte sobre essas asas. O turismo também. E o cinema feito a quatro mãos, e as universidades trocando alunos. Tudo isso pressupõe algo banal e decisivo: poder embarcar hoje e chegar amanhã.Na Câmara vejo isso todos os dias. Quando um empresário avalia onde investir, a conectividade aérea aparece sempre entre os primeiros critérios. Voo direto encurta prazo, reduz custo e, principalmente, passa confiança. Diz ao investidor que aqueles dois mercados se levam a sério. Por isso estes sessenta anos não são só uma data da aviação. São um marco da relação luso-brasileira, que aliás vive um dos seus melhores momentos, com comércio crescendo, investimento nos dois sentidos e uma agenda que vai da energia à economia digital. Essa agenda vai pedir mais pontes, não menos.O Santa Cruz pousou no Galeão com uma comitiva de pioneiros. O que ele inaugurou carrega hoje milhões de pessoas por ano. Que venham os próximos sessenta..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.