Portugal continua a receber milhares de imigrantes todos os anos. O debate sobre a imigração em Portugal tem-se centrado, nos últimos meses, sobretudo no controlo das entradas e no reforço dos requisitos de admissão no país. No entanto, esta abordagem tende a relegar para segundo plano uma questão igualmente relevante: a capacidade de Portugal para reter os imigrantes que decide acolher. Alguns estrangeiros, após obterem a documentação necessária, procuram oportunidades noutros países europeus. A questão é inevitável: porque é que Portugal deixa de ser o destino final para muitos destes profissionais?Distinguida com o primeiro lugar, na categoria Ciências Sociais, no 3º Prémio FIBE, a minha dissertação de mestrado,intitulada Ajustamento Intercultural dos Self-Initiated Expatriates Brasileiros: Um Estudo Exploratório, procurou precisamente responder a esta questão.A investigação, com base nas entrevistas feitas aos brasileiros que decidiram mudar-se para Portugal por iniciativa própria, mostrou que a adaptação cultural não era, na maioria dos casos, o principal desafio. Apesar das dificuldades iniciais, a maioria conseguiu integrar-se, criar uma rede de apoio e adaptar-se ao modo de vida português. 90% dos participantes apontaram a burocracia como o maior obstáculo no processo de integração, enquanto seis destacaram a segurança como uma das principais vantagens de viver em Portugal. No entanto, foi quando tentavam construir uma carreira compatível com as suas qualificações e expectativas que surgiram as maiores dificuldades.O reconhecimento das qualificações, os salários pouco atrativos, a escassez de oportunidades de progressão profissional e a burocracia foram os obstáculos mais frequentemente referidos.Na minha perspectiva, este é o verdadeiro desafio que Portugal enfrenta. Atrair imigrantes não basta. É preciso criar condições para que possam construir uma carreira, desenvolver um projeto de vida e, acima de tudo, escolher ficar. Nenhum destes fatores impede a chegada de novos imigrantes, mas todos influenciam a decisão de permanecer no país. Para alguns participantes, esses obstáculos fizeram com que Portugal fosse visto apenas como uma etapa antes de seguirem para outro país europeu.Embora a investigação se tenha centrado em imigrantes brasileiros, os desafios identificados remetem para questões estruturais do mercado de trabalho português. Se o debate político continuar centrado apenas em quem entra no país, corre-se o risco de negligenciar uma questão igualmente importante: a capacidade de Portugal para reter talento.Atrair profissionais exige recursos, tempo e políticas públicas. Quando, depois de ultrapassarem a burocracia, se adaptam ao mercado de trabalho português e se integram na sociedade, acabam por partir para outros países europeus, Portugal perde parte do potencial económico e social associado à sua integração. Assim, a discussão sobre a imigração não deve centrar-se apenas em quem chega ao país. Compreender porque é que muitos dos que escolhem Portugal acabam por partir é igualmente essencial. Atrair imigrantes é importante, mas o verdadeiro desafio passa por criar condições para que possam desenvolver uma carreira e construir um projeto de vida em Portugal. Só assim o país poderá afirmar-se não apenas como uma porta de entrada para a Europa, mas como um destino onde as pessoas escolhem permanecer..O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.