Texto: Luísa Cunha.Das histórias recolhidas durante meu ainda curto tempo como imigrante em Portugal, inúmeras, infelizmente, me remetem ao Brasil e ao brasileiro de forma triste. A mais marcante delas retrata um comportamento do nosso povo que apelido, carinhosamente, de "complexo de caramelo". Ainda que faça jus a um personagem tão icônico das ruas do nosso país, é também reflexo de um comportamento diminutivo e lamentável, que torna a matemática da nossa integração no exterior ainda mais complexa.Imaginem-se, imigrantes, alugando um espaço para ser o refúgio seguro na chegada a Portugal. No caso dessa história, a locação era temporária, mas tinha um ar acolhedor, quase de lar. A senhoria do apartamento onde esta conhecida foi parar não apenas era brasileira, mas também da mesma cidade dela. E cá entre nós, em um país de dimensões continentais como o Brasil, até as singularidades dos sotaques fazem diferença. Os jeitos, os gostos, tudo isso buscamos incessantemente para construirmos o nosso "novo normal". Com isso, a colega em questão sentia-se segura: quarto alugado, laços de parentesco rapidamente estabelecidos e, aqui uma dica, o clássico "cê é filho de quem?" serviu como um abraço caloroso.Pena que o "complexo de caramelo" também acompanhava essa história. Cismas pessoais em relação ao namorado da minha conhecida levaram a “gerente da república” a uma conclusão irrefutável: mulher brasileira, jovem, relacionando-se com um português que conheceu há pouco tempo? É puta. E daí, a figura materna rapidamente se transformou em grotesca. Convencida de que seus 20 anos de residência em Portugal a tinham tornado "diferente", a senhoria realmente havia mudado — mas neste caso, para um ser que se via superior à "pobre cultura brasileira" dessa recém-chegada. Resultado: passou a infernizar a vida da colega, limitando seus banhos diários, insultando-a com termos pejorativos sempre que possível e, em um ápice de crueldade, ameaçando denunciar seu visto, que era legítimo, às autoridades.O desgaste emocional foi enorme. Afetou os estudos, a adaptação e, pior, moldou o medo dessa colega de se relacionar com portugueses — sejam eles de origem ou naturalizados. A tristeza confessada a mim revela o peso que sentiu ao ser tratada com tanto desdém pelo próprio povo. E fica a pergunta: o sentimento de que somos "menos", de que nossos costumes e trejeitos são inferiores, é algo realmente adquirido por julgamentos externos ou é um status que impomos a nós mesmos?O fim da história desaguou nas autoridades portuguesas, que deram razão à colega. Com seus pertences recolhidos e resguardada pelo visto válido, ela deixou aquele primeiro "lar" em Portugal sob o olhar vigilante da polícia. Seguiu, então, em busca de um espaço que pudesse chamar de seu e, internamente, de um valor que descobriu precisar provar a todos que conhecia dali em diante, até mesmo para a própria comunidade de imigrantes brasileiros no novo país.Certamente, não podemos generalizar atitudes, sejam de brasileiros ou portugueses. Mas talvez seja o momento de vestirmos a culpa, somarmos nossas atitudes e entendermos que 2 + 2 são 4. Se temos tanta certeza e propagamos, com conotação maliciosa, nosso jeitinho característico, por que esperar que outros povos nos percebam de forma diferente? Exigir respeito sem oferecê-lo entre nós mesmos me parece um tanto hipócrita, e essa última característica, definitivamente, não é parte da cultura brasileira que amamos e conhecemos.Eu mesma já sofri na pele o complexo de caramelo. "Você está aqui há pouco tempo, precisa falar direito, mais baixo, ser mais discreta para se encaixar melhor." Refuto abertamente: além das estampas coloridas que carrego na mala, não vejo como ser mais discreta, talvez até temerosa além da conta, para me integrar de forma positiva em Portugal. Mas por que, raios, eu deveria ser menos brasileira, reinventar-me a ponto de esquecer quem sou, o que valorizo e o que vivi toda a minha vida, só para ser aceita? Por que esse apreço pelo samba, pela MPB, pelas comidas e até pelas marcas brasileiras anda de mãos dadas com o desprezo pela própria cultura e pelos outros imigrantes?Uma amiga minha, certa vez, foi alvo de um grito público: "Mas tinha de ser brasileira! Gente assim não queremos aqui. Pode voltar para o Brasil!" Ainda me lembro, com aplausos, da resposta dela: "Quem precisa voltar é você, para lembrar sua origem e aprender a respeitar sua própria cultura e o povo que te criou. Vira-lata é vira-lata no mundo todo. Cinco anos a mais do que eu nesta terra não te fazem melhor do que ninguém."O que ela disse foi exatamente assim ou algo do gênero. Peço licença ao jeitinho brasileiro, que, ao meu ver, é a essência da nossa criatividade, mas essa foi a forma como registrei e foi dela que consolidei o "complexo de caramelo". É também assim que repito e reflito sempre que encontro um dos nossos caramelos perdidos nas ruas de Portugal.Acredito que possamos aproveitar este novo ano, que se apresenta cheio de novas oportunidades, para refletir. Peguem as 12 uvas, ainda há tempo, e coloquem-se debaixo da mesa dos próprios preconceitos contra a cultura brasileira. Para cada uva, uma reflexão; para cada dia, uma nova forma de repensar as dinâmicas da imigração e da integração dos brasileiros em Portugal.E, para cada vez que avistar um brasileiro andando pela rua de Havaianas em um frio de 2º e pensar "Tinha que ser brasileiro", que sua conclusão seja: "Meu povo é resiliente e resistente. Não se curva nem mesmo ao frio que dirá aos preconceitos dos próprios conterrâneos. É cheio de alegria e tão certo de si que está aqui para somar tudo de bom que carregamos — na música, na culinária, no jeitinho e na cultura.*Luisa Cunha é advogada e imigrante brasileira radicada em Portugal há três anos. Coordenadora do Projeto "Duetos" e membro da equipa do FIBE, é pesquisadora nas áreas de direitos humanos, cooperação internacional e gestão de ONGs. .Opinião. A solidão da mãe imigrante.Opinião. Precisamos inventar novos rituais.O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.