As mudanças anunciadas pelo Governo português em relação às regras de regularização através de cursos profissionais abrem um debate importante sobre imigração, integração e futuro do país. Esse é um tema que precisa ser tratado com equilíbrio. Existe uma preocupação legítima do Estado português em organizar os processos migratórios e garantir maior capacidade de resposta administrativa. Ao mesmo tempo, também é fundamental reconhecer a realidade de milhares de imigrantes que já vivem, trabalham e contribuem diariamente para Portugal.O ponto central desse debate não deve ser o fechamento de caminhos, mas a construção de políticas migratórias mais eficientes, transparentes e humanas.Portugal precisa de imigrantes. Esta afirmação não deveria ser desconfortável. Os imigrantes têm hoje um papel real na economia portuguesa. Estudos que desenvolvemos no Prepara Portugal, com base em dados oficiais, mostram que mais de 85% dos imigrantes estão em idade ativa, enquanto esse percentual é significativamente menor entre os portugueses. Além disso, os trabalhadores estrangeiros são, em média, cerca de nove anos mais jovens, contribuindo diretamente para o rejuvenescimento da força de trabalho.As contribuições para a Segurança Social também cresceram de forma expressiva nos últimos anos e representam um saldo positivo para o sistema português. Soma-se a isso o fato de uma parcela significativa dos imigrantes possuir ensino superior e qualificação profissional relevante.Estamos a falar de pessoas que trabalham, pagam impostos, estudam, empreendem e ajudam a sustentar setores importantes da economia portuguesa.Por isso, qualquer alteração legislativa precisa considerar não apenas o controle migratório, mas também os impactos sociais, econômicos e humanos dessas decisões.A formação profissional, quando realizada em instituições sérias e devidamente fiscalizadas, sempre teve um papel importante na integração. Ela aproxima o imigrante do mercado de trabalho, da qualificação técnica e do funcionamento da sociedade portuguesa. Mais do que um mecanismo administrativo, trata-se de uma ferramenta de integração social e económica. A educação nunca deveria ser vista como ameaça.Naturalmente, todo sistema precisa de fiscalização e aperfeiçoamento. Se existem falhas, abusos ou distorções, devem ser corrigidos com rigor. Mas o debate não pode ignorar que milhares de pessoas procuram justamente caminhos legais, organizados e estruturados para construir uma vida em Portugal.Portugal tem o direito, e a responsabilidade, de organizar a sua política migratória. Mas também precisa garantir que essa organização aconteça com previsibilidade, segurança jurídica e reconhecimento da contribuição efetiva dos imigrantes para o país.A imigração não deve ser tratada apenas como um desafio administrativo. Ela também é parte da solução para questões económicas, demográficas e sociais que Portugal enfrenta hoje.Mais do que polarizar o debate, este é o momento de construir pontes: entre controlo e integração, entre organização e oportunidade, entre desenvolvimento econômico e dignidade humana.Porque políticas migratórias fortes não se fazem apenas com regras mais rígidas. Fazem-se também com capacidade de integrar, reconhecer e aproveitar o potencial de quem escolheu Portugal para viver, trabalhar e contribuir..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.