Rubens Menin adquiriu as primeiras propriedades no Douro em finais de 2017.
Rubens Menin adquiriu as primeiras propriedades no Douro em finais de 2017. Foto: D.R.

Rubens Menin: "A burocracia em Portugal e no Brasil é muito semelhante, pesada e complexa"

Com investimentos e participações que vão da MRV Engenharia ao Banco Inter, passando pelo Clube Atlético Mineiro e CNN Brasil, Rubens Menin é um dos empresários mais respeitados do Brasil e agora estende asas em Portugal
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O empresário Rubens Menin esteve em Portugal, numa das suas costumeiras visitas às propriedades que foi adquirindo no Douro, e falou ao DN e ao DN Brasil na ocasião. Focou-se particularmente nas semelhanças entre Portugal e o Brasil, não comentou o atual contexto de campanha eleitoral neste último, mas deixou sugestões a governantes de ambos os lados do Atlântico.

A ligação entre o Brasil e Portugal tem-se estreitado através do investimento e da imigração. Gostava de lhe perguntar especificamente sobre a integração entre o mundo académico e o empresarial nos dois países?

No Brasil, as empresas trabalham de forma muito mais integrada com as universidades do que em Portugal, onde essa ligação ainda é fraca. Por exemplo, na nossa construtora no Brasil, a MRV, temos quase 1000 estagiários que recebem formação prática durante a graduação. Na Menin, tentamos replicar este modelo de sucesso: temos uma excelente parceria com a Universidade de Vila Real (UTAD). Recebemos muitos estagiários de enologia, bioquímica, turismo e enoturismo. O nosso enólogo Tiago Alves de Sousa traz frequentemente turmas para visitar a nossa adega e ver o processo produtivo. Isto é benéfico para ambos os lados, pois permite-nos reter os melhores talentos, apresentando uma taxa de aproveitamento de estagiários muito alta ao fim do estágio.

Que conselho deixaria a um jovem empresário que esteja a começar agora a sua atividade, seja em Portugal ou no Brasil?

Eu sou juiz internacional do concurso "World Entrepreneur of the Year" da EY em Mônaco, onde avalio anualmente jovens empreendedores de 50 países. O empreendedor é, por natureza, um sonhador. Contudo, o mundo de hoje é muito mais competitivo e exige mais do que apenas sonhos: exige capacitação. O meu principal conselho é focar na educação e na obtenção das ferramentas certas na escola. Uma boa capacitação profissional é a espinha dorsal e a fundação de qualquer empreendimento de sucesso. É algo em que tanto o Brasil como Portugal precisam de continuar a trabalhar para melhorar constantemente.

Se pudesse deixar um recado direto aos governantes portugueses, aproveitando que estamos em vésperas de apresentação do Orçamento do Estado para 2027, em Portugal, para dinamizar a economia, quais deveriam ser as prioridades do Estado?

Do ponto de vista estritamente económico, qualquer governo deve focar-se em três grandes lutas: o combate à inflação, o combate às taxas de juro elevadas e o combate à burocracia. Para combater a burocracia, é indispensável ter planeamento estratégico. Portugal está a dar passos importantes, como o projeto do comboio de alta velocidade para ligar Lisboa, Porto, o norte de Espanha e Madrid. Mas é preciso aplicar esse planeamento estratégico a tudo: aeroportos, pontes e simplificação de processos. Menos burocracia e mais agilidade são a chave para apoiar quem quer investir e gerar riqueza.

O senhor tem realizado um investimento consistente em Portugal nos últimos anos, sendo a Menin Douro Estates a face mais visível desse projeto. O que o atrai tanto no sistema empresarial português e, especificamente, no terroir da região do Douro?

Eu considero-me um otimista realista. Acredito profundamente no potencial e na qualidade do terroir da região do Douro. No passado, observei um fenómeno semelhante no Priorat, em Espanha — uma região vinícola muito menor que, ao ser descoberta, explodiu, passando a produzir vinhos de excelente qualidade e altamente valorizados. Para mim, o Douro é um tesouro semelhante, mas muito maior. Enquanto outras regiões de Portugal já produziam vinhos de mesa de qualidade há muito tempo, o Douro só começou a focar-se seriamente nisso nos anos 2000, pois antes o foco económico estava quase totalmente centrado no Vinho do Porto. Quando comecei a entender a qualidade do que se fazia lá, por volta de 2007, percebi que era um movimento ainda embrionário, mas com um potencial gigante. Além disso, o Vinho do Porto funciona hoje como um verdadeiro embaixador do Douro no mundo, sendo muito apreciado em mercados como a China, os Estados Unidos, o Canadá e o Brasil.

Como se estruturam os investimentos da Menin Douro Estates e quais são os vossos planos de crescimento em termos de produção de vinho?

A Menin é uma empresa extremamente organizada em termos gerenciais. Temos uma sede administrativa perto de Vila Real onde controlamos todos os dados de forma rigorosa, incluindo os custos por hectare e as áreas de plantio. Eu tenho 70 anos e já não atuo como executivo, mas sim como chairman das empresas, representando a minha família, que é minha sócia. O sucesso do projeto deve-se à nossa equipa, com destaque para o nosso enólogo-chefe, Thiago Alves de Souza, que considero mágico, e o seu assistente Manel. Recentemente, comprámos mais um pedaço de terra ao lado da nossa propriedade e também detemos a Horta Osório (HO) no Baixo Corgo, na região de Santa Marta. Estamos atualmente no processo de aprovação do projeto para uma nova adega para aumentar a nossa capacidade. Este ano, prevemos colher 500 toneladas de uva, o que resultará em cerca de 500 mil garrafas. O nosso potencial atual com as novas terras é de 600 toneladas, mas o nosso sonho é atingir as 1000 toneladas. Temos a política estrita de não comprar uvas de fora, o que significa que precisamos de adquirir terra própria para expandir a produção.

O senhor referiu que Portugal ainda não se vende bem no estrangeiro. Como é que o país pode promover melhor os seus produtos de excelência?

De facto, o mundo ainda não conhece, com total liberdade, o verdadeiro potencial de Portugal. O vinho português, por exemplo, é muito mal vendido globalmente. Mas isto não se limita ao vinho: o queijo português é excecional, mas permanece desconhecido para a maioria das pessoas fora do país. O mesmo acontece com os enchidos e presuntos. A Espanha vende o Pata Negra a preços caríssimos, enquanto Portugal produz produtos com a mesma qualidade, o mesmo povo, a mesma bolota — muitas vezes utilizando porcos criados no Alentejo — mas a metade do preço. Para ajudar a colmatar esta falha de promoção, eu, como proprietário da CNN Brasil, tenho promovido a transmissão de programas sobre Portugal. Já vamos no quinto programa focado em vinhos e turismo, abrangendo não apenas o Douro, mas quintas de todo o país, pois considero fundamental mostrar aquilo em que acreditamos.

A história de Portugal é um dos seus maiores patrimónios. Como é que essa riqueza histórica se reflete no vosso projeto e na preservação das vossas propriedades?

Portugal tem uma história riquíssima e muito bonita que remonta ao século I. Juntamente com a China, talvez seja o país que teve mais relevância na história do mundo, e a região do Norte — Porto, Braga, Guimarães — é a própria personificação dessa história. Na nossa quinta, procurámos preservar essa herança ao máximo. A minha esposa, que é formada em história e foi professora, liderou esse esforço, conservando a cultura local, restaurando o que era possível e trazendo obras que mostram essa evolução ao longo dos anos. Acredito que motivar as pessoas a conhecerem a história de Portugal, tal como conhecem a de França ou de Inglaterra, é um excelente motor de atração para visitantes qualificados.

Uma das queixas mais frequentes dos investidores em Portugal prende-se com a burocracia. Como avalia este entrave e de que forma ele afeta os vossos projetos?

A burocracia em Portugal e no Brasil é muito semelhante, pesada e complexa, o que atrapalha significativamente os investimentos. Nos Estados Unidos, onde também temos negócios, a burocracia é muito menor. Em Portugal, por exemplo, o processo de aprovação de um projeto é extremamente demorado e lento. Como empresário brasileiro, estou habituado a este tipo de ecossistema, mas o ideal seria que não fosse assim. A própria população portuguesa está muito ciente deste problema, e é necessário lutar contra isso de forma organizada, demonstrando onde e como a burocracia está a bloquear o desenvolvimento.

Como é que o atual cenário económico global, marcado pela subida das taxas de juro – e o senhor tem sido muito vocal sobre isso – e pela inflação, afeta o planeamento e a execução dos vossos investimentos?

O mundo ocidental atravessa um momento muito complexo. As taxas de juro elevadas são péssimas para o investimento: quanto mais altos os juros, menor é o investimento produtivo. Isto alimenta a figura do "rentista", que prefere deixar o dinheiro a render juros de forma tranquila em vez de correr o risco de investir na economia real. Além disso, vivemos sob uma forte pressão inflacionária, agravada pelas guerras na Ucrânia e no Irão. Planear neste cenário de grande incerteza é muito mais desafiador; exige que façamos contas muito mais bem-feitas para evitar erros. No entanto, tendo boa informação gerencial, torna-se mais fácil navegar e continuar a investir.

O turismo e o enoturismo são pilares fundamentais para o Douro. Que projetos têm nesta área e que melhorias de infraestrutura considera urgentes para a região?

O enoturismo completa o ciclo do negócio do vinho. Nós já temos uma estrutura a funcionar, mas temos em projeto uma ampliação que inclui um espaço para eventos, mais salas de provas e um restaurante. O turismo e a hotelaria vão trazer muitos recursos e empregos de alta qualidade para o Douro. Contudo, precisamos de melhorar a infraestrutura regional, respeitando sempre a arquitetura local, como fizemos na nossa quinta. Um dos meus sonhos seria a construção de uma ponte no Ferrão, junto à paragem do comboio, com o mesmo modelo da ponte do Pinhão. A topografia ali é muito apropriada e não seria uma obra cara, mas daria um impulso económico gigantesco ao enoturismo da região se o governo avançasse com ela.

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