O empresário Rubens Menin esteve em Portugal, numa das suas costumeiras visitas às propriedades que foi adquirindo no Douro, e falou ao DN e ao DN Brasil na ocasião. Focou-se particularmente nas semelhanças entre Portugal e o Brasil, não comentou o atual contexto de campanha eleitoral neste último, mas deixou sugestões a governantes de ambos os lados do Atlântico.A ligação entre o Brasil e Portugal tem-se estreitado através do investimento e da imigração. Gostava de lhe perguntar especificamente sobre a integração entre o mundo académico e o empresarial nos dois países?No Brasil, as empresas trabalham de forma muito mais integrada com as universidades do que em Portugal, onde essa ligação ainda é fraca. Por exemplo, na nossa construtora no Brasil, a MRV, temos quase 1000 estagiários que recebem formação prática durante a graduação. Na Menin, tentamos replicar este modelo de sucesso: temos uma excelente parceria com a Universidade de Vila Real (UTAD). Recebemos muitos estagiários de enologia, bioquímica, turismo e enoturismo. O nosso enólogo Tiago Alves de Sousa traz frequentemente turmas para visitar a nossa adega e ver o processo produtivo. Isto é benéfico para ambos os lados, pois permite-nos reter os melhores talentos, apresentando uma taxa de aproveitamento de estagiários muito alta ao fim do estágio.Que conselho deixaria a um jovem empresário que esteja a começar agora a sua atividade, seja em Portugal ou no Brasil?Eu sou juiz internacional do concurso "World Entrepreneur of the Year" da EY em Mônaco, onde avalio anualmente jovens empreendedores de 50 países. O empreendedor é, por natureza, um sonhador. Contudo, o mundo de hoje é muito mais competitivo e exige mais do que apenas sonhos: exige capacitação. O meu principal conselho é focar na educação e na obtenção das ferramentas certas na escola. Uma boa capacitação profissional é a espinha dorsal e a fundação de qualquer empreendimento de sucesso. É algo em que tanto o Brasil como Portugal precisam de continuar a trabalhar para melhorar constantemente.Se pudesse deixar um recado direto aos governantes portugueses, aproveitando que estamos em vésperas de apresentação do Orçamento do Estado para 2027, em Portugal, para dinamizar a economia, quais deveriam ser as prioridades do Estado?Do ponto de vista estritamente económico, qualquer governo deve focar-se em três grandes lutas: o combate à inflação, o combate às taxas de juro elevadas e o combate à burocracia. Para combater a burocracia, é indispensável ter planeamento estratégico. Portugal está a dar passos importantes, como o projeto do comboio de alta velocidade para ligar Lisboa, Porto, o norte de Espanha e Madrid. Mas é preciso aplicar esse planeamento estratégico a tudo: aeroportos, pontes e simplificação de processos. Menos burocracia e mais agilidade são a chave para apoiar quem quer investir e gerar riqueza.O senhor tem realizado um investimento consistente em Portugal nos últimos anos, sendo a Menin Douro Estates a face mais visível desse projeto. O que o atrai tanto no sistema empresarial português e, especificamente, no terroir da região do Douro?Eu considero-me um otimista realista. Acredito profundamente no potencial e na qualidade do terroir da região do Douro. No passado, observei um fenómeno semelhante no Priorat, em Espanha — uma região vinícola muito menor que, ao ser descoberta, explodiu, passando a produzir vinhos de excelente qualidade e altamente valorizados. Para mim, o Douro é um tesouro semelhante, mas muito maior. Enquanto outras regiões de Portugal já produziam vinhos de mesa de qualidade há muito tempo, o Douro só começou a focar-se seriamente nisso nos anos 2000, pois antes o foco económico estava quase totalmente centrado no Vinho do Porto. Quando comecei a entender a qualidade do que se fazia lá, por volta de 2007, percebi que era um movimento ainda embrionário, mas com um potencial gigante. Além disso, o Vinho do Porto funciona hoje como um verdadeiro embaixador do Douro no mundo, sendo muito apreciado em mercados como a China, os Estados Unidos, o Canadá e o Brasil.Como se estruturam os investimentos da Menin Douro Estates e quais são os vossos planos de crescimento em termos de produção de vinho?A Menin é uma empresa extremamente organizada em termos gerenciais. Temos uma sede administrativa perto de Vila Real onde controlamos todos os dados de forma rigorosa, incluindo os custos por hectare e as áreas de plantio. Eu tenho 70 anos e já não atuo como executivo, mas sim como chairman das empresas, representando a minha família, que é minha sócia. O sucesso do projeto deve-se à nossa equipa, com destaque para o nosso enólogo-chefe, Thiago Alves de Souza, que considero mágico, e o seu assistente Manel. Recentemente, comprámos mais um pedaço de terra ao lado da nossa propriedade e também detemos a Horta Osório (HO) no Baixo Corgo, na região de Santa Marta. Estamos atualmente no processo de aprovação do projeto para uma nova adega para aumentar a nossa capacidade. Este ano, prevemos colher 500 toneladas de uva, o que resultará em cerca de 500 mil garrafas. O nosso potencial atual com as novas terras é de 600 toneladas, mas o nosso sonho é atingir as 1000 toneladas. Temos a política estrita de não comprar uvas de fora, o que significa que precisamos de adquirir terra própria para expandir a produção.O senhor referiu que Portugal ainda não se vende bem no estrangeiro. Como é que o país pode promover melhor os seus produtos de excelência?De facto, o mundo ainda não conhece, com total liberdade, o verdadeiro potencial de Portugal. O vinho português, por exemplo, é muito mal vendido globalmente. Mas isto não se limita ao vinho: o queijo português é excecional, mas permanece desconhecido para a maioria das pessoas fora do país. O mesmo acontece com os enchidos e presuntos. A Espanha vende o Pata Negra a preços caríssimos, enquanto Portugal produz produtos com a mesma qualidade, o mesmo povo, a mesma bolota — muitas vezes utilizando porcos criados no Alentejo — mas a metade do preço. Para ajudar a colmatar esta falha de promoção, eu, como proprietário da CNN Brasil, tenho promovido a transmissão de programas sobre Portugal. Já vamos no quinto programa focado em vinhos e turismo, abrangendo não apenas o Douro, mas quintas de todo o país, pois considero fundamental mostrar aquilo em que acreditamos.A história de Portugal é um dos seus maiores patrimónios. Como é que essa riqueza histórica se reflete no vosso projeto e na preservação das vossas propriedades?Portugal tem uma história riquíssima e muito bonita que remonta ao século I. Juntamente com a China, talvez seja o país que teve mais relevância na história do mundo, e a região do Norte — Porto, Braga, Guimarães — é a própria personificação dessa história. Na nossa quinta, procurámos preservar essa herança ao máximo. A minha esposa, que é formada em história e foi professora, liderou esse esforço, conservando a cultura local, restaurando o que era possível e trazendo obras que mostram essa evolução ao longo dos anos. Acredito que motivar as pessoas a conhecerem a história de Portugal, tal como conhecem a de França ou de Inglaterra, é um excelente motor de atração para visitantes qualificados.Uma das queixas mais frequentes dos investidores em Portugal prende-se com a burocracia. Como avalia este entrave e de que forma ele afeta os vossos projetos?A burocracia em Portugal e no Brasil é muito semelhante, pesada e complexa, o que atrapalha significativamente os investimentos. Nos Estados Unidos, onde também temos negócios, a burocracia é muito menor. Em Portugal, por exemplo, o processo de aprovação de um projeto é extremamente demorado e lento. Como empresário brasileiro, estou habituado a este tipo de ecossistema, mas o ideal seria que não fosse assim. A própria população portuguesa está muito ciente deste problema, e é necessário lutar contra isso de forma organizada, demonstrando onde e como a burocracia está a bloquear o desenvolvimento.Como é que o atual cenário económico global, marcado pela subida das taxas de juro – e o senhor tem sido muito vocal sobre isso – e pela inflação, afeta o planeamento e a execução dos vossos investimentos?O mundo ocidental atravessa um momento muito complexo. As taxas de juro elevadas são péssimas para o investimento: quanto mais altos os juros, menor é o investimento produtivo. Isto alimenta a figura do "rentista", que prefere deixar o dinheiro a render juros de forma tranquila em vez de correr o risco de investir na economia real. Além disso, vivemos sob uma forte pressão inflacionária, agravada pelas guerras na Ucrânia e no Irão. Planear neste cenário de grande incerteza é muito mais desafiador; exige que façamos contas muito mais bem-feitas para evitar erros. No entanto, tendo boa informação gerencial, torna-se mais fácil navegar e continuar a investir.O turismo e o enoturismo são pilares fundamentais para o Douro. Que projetos têm nesta área e que melhorias de infraestrutura considera urgentes para a região?O enoturismo completa o ciclo do negócio do vinho. Nós já temos uma estrutura a funcionar, mas temos em projeto uma ampliação que inclui um espaço para eventos, mais salas de provas e um restaurante. O turismo e a hotelaria vão trazer muitos recursos e empregos de alta qualidade para o Douro. Contudo, precisamos de melhorar a infraestrutura regional, respeitando sempre a arquitetura local, como fizemos na nossa quinta. Um dos meus sonhos seria a construção de uma ponte no Ferrão, junto à paragem do comboio, com o mesmo modelo da ponte do Pinhão. A topografia ali é muito apropriada e não seria uma obra cara, mas daria um impulso económico gigantesco ao enoturismo da região se o governo avançasse com ela..Rubens Menin: "O mundo ideal é aquele em que, para ganhar dinheiro, é preciso investir e correr riscos".Da economia à guerra santa. Sete chaves que decidem o futuro presidente do Brasil