Será mais fácil exportar produtos.
Será mais fácil exportar produtos.Foto: Paulo Spranger

“Muitos pensam que é só mandar vir os produtos", diz consultor brasileiro de importação e exportação

Com o acordo entre o Mercosul e a UE, aumentam as possibilidades de expansão dos produtos brasileiros em Portugal. Mas, com ou sem acordo, é necessário ter atenção para algumas questões importantes.
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Portugal é conhecido como a “porta de entrada da Europa”, com chances de se tornar ainda mais essa porta com o acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE). No entanto, a importação de produtos não é um negócio fácil, e alguns erros podem ser fatais.

Em entrevista ao DN Brasil, o consultor brasileiro Rogério Tadeu explica que um dos principais erros cometidos é montar o negócio sem conhecer as regras. “Muitos pensam que é só mandar vir os produtos, mas não, há uma série de regras”, explica o imigrante, que trabalha com o tema em Portugal desde 2017.

Por enquanto, o acordo da UE com o Mercosul ainda não está em vigor. Porém, existe toda uma preparação prévia. “Quando a gente tiver a consolidação do acordo, o que vai facilitar muito são as regras sanitárias e as regras que a gente tem de seguir para colocar os produtos aqui. Haverá uma uniformização nesse processo e vai ter também uma redução das alíquotas”, detalha. “Isso vai, com certeza, facilitar muito e vai permitir que a gente tenha um número maior de pessoas fazendo essa importação”, complementa o consultor, fundador da Outbox Trade.

Será que produtos que hoje não circulam aqui, como embutidos (a famosa salsicha brasileira e a mortadela), vão estar nas prateleiras portuguesas? Ainda não se sabe. “As questões sanitárias relacionadas ao Acordo UE-Mercosul ainda estão pouco definidas. Hoje, existem limitações em relação não só à carne, mas, principalmente, por exemplo, ao queijo e aos ovos que vêm do Brasil. Esses produtos são proibidos de entrar aqui, justamente porque o Brasil, por uma questão de estratégia, decidiu não cumprir as regras sanitárias que a Europa exige para que esses produtos entrem. Com a assinatura do acordo, essas regras podem, talvez, ser mais flexibilizadas para que o país possa segui-las. E aí a gente pode ter a entrada desses produtos”, pontua.

Além disso, o valor das cotas que hoje existem, sem o acordo estar em vigor, é alto. “A empresa precisa acessar essas cotas para poder pagar menos imposto e ser competitiva quando colocar o produto aqui. Hoje, o que dificulta muito a entrada de produtos de origem animal aqui, por exemplo, são justamente as cotas, que deixam o imposto de importação muito alto”, analisa.

Para “matar a saudade” de alguns produtos brasileiros, marcas portuguesas apostam cada vez mais em versões fabricadas em solo europeu. “É estratégico para o chamado mercado da saudade, mas, sem dúvida, mostra a qualidade que o produto brasileiro tem”, avalia.

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As dúvidas de quem importa mercadorias

Nestes quase dez anos, Rogério já perdeu as contas de quantas consultorias prestou nesta área. Na maior parte delas, no entanto, aparecem dúvidas comuns dos clientes. No caso dos que querem trazer produtos do Brasil, o questionamento é sobre por onde começar o processo. “Muitas vezes, ele tem a ideia, tem o produto, mas o que falta é justamente a informação de como fazer esse produto chegar aqui de forma a que ele possa fazer a importação de maneira legal e desenvolver o negócio. Não se trata simplesmente de mandar vir a mercadoria de lá. A gente tem uma série de regras que precisa cumprir”, detalha.

Outra dúvida comum é como fazer o desenvolvimento do negócio em Portugal. Em muitos casos, o erro começa logo na compra da mercadoria. “O empreendedor faz a compra dos produtos lá no Brasil para mandar vir para cá e compra no nome de um familiar ou no próprio nome, mas usando o CPF. Porém, em uma transação internacional, o produto tem de sair direto da origem para o destino. Ou seja, quando se faz essa compra direta, seja por meio de um familiar ou com o próprio CPF, fica impossibilitada a exportação comercial desses produtos”, salienta.

Outro erro, alerta o brasileiro, é “não se preocupar com as necessidades relacionadas às exigências do comércio exterior ou até com as facilidades que ele pode ter”. Uma delas, por exemplo, é não pagar o IVA já na primeira carga. “O importador aqui em Portugal pode fazer uma importação e não pagar o IVA assim que essa mercadoria chega, estamos falando de 23% sobre o valor da mercadoria, o que é bastante significativo. Mas, para isso, existem regras a cumprir”, pontua. As regras são ter a contabilidade organizada, ser declarante mensal do IVA e fazer uma solicitação nas Finanças com, pelo menos, 15 dias de antecedente da mercadoria chegar aqui. “O desconhecimento desta possibilidade mostra que estar bem planejado é essencial no negócio”, finaliza.

amanda.lima@dn.pt

Este texto está publicado na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 02 de junho.
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