Será levado a tribunal o cidadão português que oferecia 500 euros por cada cabeça de brasileiros "legal ou ilegal, cortada rente, ao pescoço". O Ministério Público (MP) o acusou pelos crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência e instigação pública a um crime.O DN/DN Brasil teve acesso ao despacho de acusação, no qual é descrito que "agiu sempre de vontade livre, deliberada e consciente, sabendo que as suas condutas eram proibidas e punidas por lei". O vídeo foi publicado na rede social TikTok em agosto do ano passado e rapidamente se tornou viral, com críticas, mas também apoios à conduta."O arguido sabia que, actuando do modo descrito, da forma pública como o fazia, por meios particularmente destinados à sua divulgação e proliferação, designadamente rede social e plataforma de divulgação pública, incentivando e instigando outrem à prática de crimes contra a integridade física e contra a vida de indivíduos de nacionalidade brasileira". O MP descreve que o indivíduo colocou "em perigo um específico grupo de pessoas, apenas pela sua nacionalidade, cometia factos ilícitos e criminalmente puníveis".O acusado chegou a ser detido pela Polícia Judiciária (MP), mas foi liberado logo depois. Como medida, ficou determinado que se apresentasse duas vezes por semana à polícia, a proibição de publicação de conteúdos na internet e redes sociais e sujeição à avaliação psicológica."Desestimular o comportamento discriminatório"A denúncia foi realizada por um grupo de 40 advogadas e advogados, tanto do Brasil atuantes em Portugal como portugueses. O grupo destaca ao jornal a importância da decisão. "Ainda que tenhamos ouvido muitas vezes na altura da denúncia que 'não ia dar em nada' o facto é que o autor irá sim responder criminalmente e o inquérito não foi arquivado e esquecido. Esse caso é mesmo importante para desestimular o comportamento discriminatório contra a comunidade imigrante que temos visto na sociedade portuguesa", ressalta.O homem, de 56 anos, já tem antecedentes criminais e estava sendo investigado pela Judiciária antes mesmo da publicação do vídeo. No perfil do TikTok, removido pela plataforma, constavam várias publicações de caráter nacionalista e xenófobo.Apesar de celebrar a decisão da acusação do indivíduo, o grupo de profissionais contesta a forma de julgamento. A pena para esses crimes pode chegar a oito anos, o que normalmente levaria o caso a um colegiado de três juízes. No entanto, o MP decidiu enviar o processo para um juiz singular. Em termos práticos, significa que a pena não passa de cinco anos, "mesmo reconhecendo, no mesmo despacho, que o caso exige uma resposta exemplar da Justiça pela gravidade e repercussão dos factos", referem os advogados.Foi solicitado por uma das denunciantes que um juiz reavalie essa decisão antes do julgamento. "Como reconhecer que o caso é grave e, ao mesmo tempo, já decidir de antemão que a pena será mais branda. O pedido é que o processo siga para o tribunal coletivo, dada a gravidade dos factos: um apelo público e repetido à morte de brasileiros, com oferta de dinheiro por decapitação, amplamente divulgado na imprensa nacional e internacional", explicam.Esta decisão cabe agora ao juiz. A notícia da acusação ocorre uma semana após o Parlamento recusar, logo na primeira votação, o reforço da lei em casos de discriminação. Com a união da direita do Parlamento, a proposta, que partiu uma mobilização sociedade civil, nem chegou perto de ser aprovada.amanda.lima@dn.pt.O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Adiada sentença de jovem acusado de usar internet para instigar massacres .Parlamento chumba iniciativa cidadã que pretendia reforçar combate ao racismo