Com a derrota de Aécio Neves, Benedita da Silva, Lídice da Mata e Sérgio Brito nas eleições de domingo, dia 4, pela primeira vez, desde 1988, a Câmara dos Deputados vai ter uma legislatura sem nenhum dos parlamentares que assinaram naquele ano a Constituição que consolidou a redemocratização brasileira após 21 anos de ditadura. Pelo contrário, terá uma mão cheia de políticos jovens ultra-conservadores, em parte críticos daquele texto, ao estilo de Nikolas Ferreira.Nikolas Ferreira, do Partido Liberal (PL) de Jair e Flávio Bolsonaro, é, desde dia 4, aos 30 anos, o deputado federal mais votado da história do Brasil, com 3,11 milhões de votos por Minas Gerais, mais do dobro do que os já notáveis 1,4 obtidos em 2022. Com isso, o parlamentar evangélico que no Dia Internacional da Mulher subiu ao púlpito da Câmara com uma peruca loira e pediu para ser chamado de Nicole para confrontar as deputadas trans, multiplicou-se país afora: agora, quais clones, há quase um Nikolas por estado. “Se um Nikolas em Brasília já incomoda o sistema, imagina dois”, era aliás um dos slogans de campanha de Lucas Pavanato, também do PL, em São Paulo. E o dueto resultou: Pavanato, um influencer de direita de 28 anos que defende o fim das quotas raciais nas universidades e os 14 anos como idade de responsabilização penal, é agora o segundo deputado federal mais votado da história do país, só atrás do padrinho Nikolas, com 3,038 milhões de votos. .O anterior recorde, visto na altura como imbatível, era de Eduardo Bolsonaro, filho de Jair e irmão de Flávio, que recebeu 1,8 milhão de votos em 2018 em São Paulo.Ainda em São Paulo, Eduarda Campopiano (PL), 23 anos, foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa do estado, com 1,9 milhão de votos. Campopiano apresenta-se como “a maior inimiga das feministas”. Giuliano Salvarani, professor de Comunicação, Marketing e Política da Escola Superior de Propaganda e Marketing, de São Paulo, diz ao DN que “a questão da multiplicação de deputados do tipo Nikolas, como Pavanato ou Campopiano, representa fenómeno social e digital que coexistem”. “A primeira questão a entender”, segundo o académico, “é que a dinâmica da política do Brasil está cada vez mais radicalizada”. “O candidato neutro, que não tem opiniões fortes e que não propõe a mudança, fica num limbo ideológico que o eleitorado tem rejeitado”.“Em segundo plano, o fenómeno digital, quando bem trabalhado, propõe grandes mudanças na economia da atenção, as pessoas que passam a maior parte do seu tempo se informando e se politizando através do telemóvel têm maior exposição a esse tipo de candidato em contraposição a outras lideranças políticas”, continua..Nikolas não é a única causa, defende o professor de Comunicação, Marketing e Política. “É claro que o Nikolas, hoje equiparável em influência até ao próprio Jair Bolsonaro, faz com que se multiplique a economia da atenção para os candidatos apontados por ele, mas eles também se auto-elaboram”.No estado do Espírito Santo, o fervoroso bolsonarista Lucas Polese, 29 anos, após campanha lado a lado com Nikolas, foi o deputado mais votado da história local, pelo PL, o partido de Thiago Medina, eleito em Pernambuco, bastião do PT, aos 21. No Ceará, André Fernandes, 29 anos, que ganhou notoriedade como youtuber de vídeos de humor e política, foi reeleito deputado, ainda pelo PL, com votação recorde, superando números do histórico político cearense Ciro Gomes. No Paraná, Guilherme Kilter, 24 anos, foi o segundo deputado mais votado. Vereador de Curitiba, é da Primeira Igreja Batista, que frequenta desde os 17. Do partido Novo, partilhou vídeos em que chamava Renato Freitas, deputado negro do PT de Lula da Silva, de “bandido”, “escória” e “criminoso”. A propósito dele, Eliara Santana, pesquisadora do Observatório das Eleições, notou que nem sempre a atuação desses políticos começa nas redes sociais. "Essa turma articula via igrejas, meninos religiosos que estão na política encantam as pessoas mais velhas”, afirmou, em declarações à BBC Brasil. O próprio Nikolas tem ligação à Igreja Batista da Lagoinha e escreveu o livro “O Cristão e a Política”, André Fernandes é filho de um pastor da Assembleia de Deus no Ceará, Pavanato é católico praticante. Mas a esquerda faz o contraponto. Em São Paulo, a deputada trans Erika Hilton, do PSOL, à esquerda do PT, somou 1,59 milhão de votos para deputada, e Ana Elisa, influencer de 21 do próprio PT de Minas Gerais, teve mais de 500 mil – ambas já se reuniram com Lula para alinhar estratégias de segunda volta. No Distrito Federal, Fábio Félix, do PSOL, foi o mais votado para deputado e, em Pernambuco, o youtuber Jones Manoel, ainda do PSOL, foi o segundo. Todos têm menos de 40 anos, são “nativos digitais” e, como escreve a jornalista Andreza Matais, no site Metrópoles, “mais parecidos com seus pares de direita que também vieram das redes sociais do que gostariam de admitir, a base material de poder é a mesma: os algoritmos de recomendação das redes sociais”..Flávio Bolsonaro tem matemática, conjuntura e história a favor na segunda volta