Nikolas Ferreira tornou-se no dia 4 no deputado federal mais votado da história do Brasil, com 3,11 milhões de votos.
Nikolas Ferreira tornou-se no dia 4 no deputado federal mais votado da história do Brasil, com 3,11 milhões de votos.Foto: Facebook de Nikolas Ferreira

Brasil é tomado pela multiplicação de jovens políticos conservadores

Deputado Nikolas Ferreira, “veterano” de 30 anos, apadrinha nova leva de recordistas de votos com o mesmo perfil e faixa etária país afora. Esquerda tenta responder na mesma moeda.
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Com a derrota de Aécio Neves, Benedita da Silva, Lídice da Mata e Sérgio Brito nas eleições de domingo, dia 4, pela primeira vez, desde 1988, a Câmara dos Deputados vai ter uma legislatura sem nenhum dos parlamentares que assinaram naquele ano a Constituição que consolidou a redemocratização brasileira após 21 anos de ditadura. Pelo contrário, terá uma mão cheia de políticos jovens ultra-conservadores, em parte críticos daquele texto, ao estilo de Nikolas Ferreira.

Nikolas Ferreira, do Partido Liberal (PL) de Jair e Flávio Bolsonaro, é, desde dia 4, aos 30 anos, o deputado federal mais votado da história do Brasil, com 3,11 milhões de votos por Minas Gerais, mais do dobro do que os já notáveis 1,4 obtidos em 2022. Com isso, o parlamentar evangélico que no Dia Internacional da Mulher subiu ao púlpito da Câmara com uma peruca loira e pediu para ser chamado de Nicole para confrontar as deputadas trans, multiplicou-se país afora: agora, quais clones, há quase um Nikolas por estado.          

“Se um Nikolas em Brasília já incomoda o sistema, imagina dois”, era aliás um dos slogans de campanha de Lucas Pavanato, também do PL, em São Paulo. E o dueto resultou: Pavanato, um influencer de direita de 28 anos que defende o fim das quotas raciais nas universidades e os 14 anos como idade de responsabilização penal, é agora o segundo deputado federal mais votado da história do país, só atrás do padrinho Nikolas, com 3,038 milhões de votos. 

“Se um Nikolas em Brasília já incomoda o sistema, imagina dois”, era um dos slogans de campanha de Lucas Pavanato.
“Se um Nikolas em Brasília já incomoda o sistema, imagina dois”, era um dos slogans de campanha de Lucas Pavanato.Foto: Facebook de Lucas Pavanato

O anterior recorde, visto na altura como imbatível, era de Eduardo Bolsonaro, filho de Jair e irmão de Flávio, que recebeu 1,8 milhão de votos em 2018 em São Paulo.

Ainda em São Paulo, Eduarda Campopiano (PL), 23 anos, foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa do estado, com 1,9 milhão de votos. Campopiano apresenta-se como “a maior inimiga das feministas”. 

Giuliano Salvarani, professor de Comunicação, Marketing e Política da Escola Superior de Propaganda e Marketing, de São Paulo, diz ao DN que “a questão da multiplicação de deputados do tipo Nikolas, como Pavanato ou Campopiano, representa fenómeno social e digital que coexistem”. 

“A primeira questão a entender”, segundo o académico, “é que a dinâmica da política do Brasil está cada vez mais radicalizada”. “O candidato neutro, que não tem opiniões fortes e que não propõe a mudança, fica num limbo ideológico que o eleitorado tem rejeitado”.

“Em segundo plano, o fenómeno digital, quando bem trabalhado, propõe grandes mudanças na economia da atenção, as pessoas que passam a maior parte do seu tempo se informando e se politizando através do telemóvel têm maior exposição a esse tipo de candidato em contraposição a outras lideranças políticas”, continua.

Eduarda Campopiano apresenta-se como “a maior inimiga das feministas”.
Eduarda Campopiano apresenta-se como “a maior inimiga das feministas”. Foto: Facebook de Eduarda Campopiano

Nikolas não é a única causa, defende o professor de Comunicação, Marketing e Política. “É claro que o Nikolas, hoje equiparável em influência até ao próprio Jair Bolsonaro, faz com que se multiplique a economia da atenção para os candidatos apontados por ele, mas eles também se auto-elaboram”.

No estado do Espírito Santo, o fervoroso bolsonarista Lucas Polese, 29 anos, após campanha lado a lado com Nikolas, foi o deputado mais votado da história local, pelo PL, o partido de Thiago Medina, eleito em Pernambuco, bastião do PT, aos 21. 

No Ceará, André Fernandes, 29 anos, que ganhou notoriedade como youtuber de vídeos de humor e política, foi reeleito deputado, ainda pelo PL, com votação recorde, superando números do histórico político cearense Ciro Gomes. 

No Paraná, Guilherme Kilter, 24 anos, foi o segundo deputado mais votado. Vereador de Curitiba, é da Primeira Igreja Batista, que frequenta desde os 17. Do partido Novo, partilhou vídeos em que chamava Renato Freitas, deputado negro do PT de Lula da Silva, de “bandido”, “escória” e “criminoso”. 

A propósito dele, Eliara Santana, pesquisadora do Observatório das Eleições, notou que nem sempre a atuação desses políticos começa nas redes sociais. "Essa turma articula via igrejas, meninos religiosos que estão na política encantam as pessoas mais velhas”, afirmou, em declarações à BBC Brasil. 

O próprio Nikolas tem ligação à Igreja Batista da Lagoinha e escreveu o livro “O Cristão e a Política”, André Fernandes é filho de um pastor da Assembleia de Deus no Ceará, Pavanato é católico praticante. 

Mas a esquerda faz o contraponto. Em São Paulo, a deputada trans Erika Hilton, do PSOL, à esquerda do PT, somou 1,59 milhão de votos para deputada, e Ana Elisa, influencer de 21 do próprio PT de Minas Gerais, teve mais de 500 mil – ambas já se reuniram com Lula para alinhar estratégias de segunda volta.  

No Distrito Federal, Fábio Félix, do PSOL, foi o mais votado para deputado e, em Pernambuco, o youtuber Jones Manoel, ainda do PSOL, foi o segundo. 

Todos têm menos de 40 anos, são “nativos digitais” e, como escreve a jornalista Andreza Matais, no site Metrópoles, “mais parecidos com seus pares de direita que também vieram das redes sociais do que gostariam de admitir, a base material de poder é a mesma: os algoritmos de recomendação das redes sociais”.

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