Eleitores de Flávio Bolsonaro ouvidos pela Lusa em Fortaleza, no Ceará, dizem não se deixar convencer pelas suspeitas que envolvem o candidato, atribuem parte das denúncias à polarização e dizem ser necessário “dar voto de confiança”. Entre os apoiantes entrevistados, questões como os dois inquéritos que envolvem Flávio no Supremo Tribunal Federal, relacionados a suspeitas de lavagem de dinheiro não parecem ter alterado a intenção de voto.Flávio Bolsonaro encerrou na quarta-feira a campanha pelo Nordeste, região onde precisa reduzir a diferença face ao atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Tenho acompanhado [o noticiário], mas para mim não muda nada”, disse Amanda Késsya Carvalho Nogueira, de 37 anos, que fechou um salão de beleza onde, segundo relatou, chegaram a trabalhar 15 pessoas.Amanda afirmou que acumulou dívidas e enfrentou dificuldades com mão de obra, algo que associa à atual Administração. “Quero ver o Governo dele, do Flávio Bolsonaro”, afirmou, acrescentando que pretende continuar a apoiar o candidato apesar das suspeitas.Desempregada, Lara Salles de Jesus, de 33 anos, disse confiar na palavra de Flávio e afirmou que as suspeitas não lhe causam “nenhum incómodo”, acrescentando que os críticos “não querem enxergar” o que considera serem ações corretas do candidato. Já o marido, Lucas Gomes de Freitas, de 35 anos, empresário em nome individual, admitiu ter ficado inicialmente apreensivo com a proximidade entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, centro do escândalo do Banco Master, preso por fraude no sistema financeiro.Freitas, porém, disse ter mudado de posição, mesmo com os áudios de Flávio a Vorcaro, após as explicações de Flávio sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, a cinebiografia do pai Jair Bolsonaro, interpretado por Jim Caviezel. “Foi um patrocínio privado”, afirmou Lucas, reproduzindo a explicação de Flávio.Além da suspeita de lavagem de dinheiro a envolver o filme, a Polícia Federal brasileira investiga uma suposta lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e um amigo, o advogado Willer Tomaz, numa casa de apostas, conhecidas no Brasil como 'bets'. A corporação também investiga se Bolsonaro foi sócio oculto de uma 'bet' ligada diretamente a Willer. “Confesso que não acompanhei esse último assunto”, disse Lucas, que acrescentou apoiar a investigação e afirmou que não “passaria a mão na cabeça” do candidato caso alguma irregularidade fosse comprovada.Para Magébio Williams Almeida, de 40 anos, empresário do setor de confeções, que foi ao ato acompanhado do filho pequeno, nada lhe faria mudar de opinião. “A forma que está a polarização hoje, é difícil acreditar. Então, assim, a gente só tem certeza de uma coisa: é que não dá para esperar a mesma coisa votando sempre no mesmo”, afirmou em crítica ao que chamou de “20 anos” do Partido Trabalhista de Lula no poder.“Infelizmente, nos últimos anos também a imprensa não está tão imparcial”, afirmou, acrescentando que “procura informações diretamente nas fontes” para verificar se são verdadeiras, mas sem detalhar que fontes são essas. Entre os apoiantes do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, a desconfiança em relação à imprensa convive com uma forte expectativa de mudança e com a perceção de que o Nordeste precisa de uma alternativa.“É a única esperança que nos resta”, afirmou Cláudio Noronha, 45, comerciante em nome individual na área alimentícia, que usava uma camisa e um boné com o número de Flávio nas urnas, 22. A mulher, Fernanda Feitosa, de 40 anos, comerciante de semijoias, resumiu a expectativa numa palavra: “esperança” de mudança, ao dizer que era preciso “dar um voto de confiança” em Flávio.O casal disse estar preocupado com os impostos e os custos para os pequenos empresários e acredita que Flávio poderá melhorar a situação económica.Cláudio classificou, sem apresentar provas, as notícias sobre as suspeitas envolvendo o candidato como notícias falsas produzidas pelo rival e afirmou que, quando as denúncias aparecem, Flávio acaba por crescer nas sondagens. “Hoje em dia o telemóvel é a revista eletrónica”, disse, explicando que acompanha as notícias principalmente através do aparelho e das redes sociais."Boatos"A professora Ananda Vitória Pires, de 26 anos, também afirmou que as suspeitas não mudaram a intenção de voto, alegando que não viu “nada concreto” e que muitas informações são “apenas boatos”.A poucos dias da votação, a prioridade para os eleitores permanece a mudança política, com a segurança pública, a economia e expectativas pessoais a pesarem mais do que as suspeitas que atinjam Bolsonaro. “Eu quero essa mudança”, resumiu Ananda, que levou os dois filhos, de cinco anos e cinco meses, ao ato de campanha em Fortaleza.A segunda volta das presidenciais brasileiras é disputada no domingo. Na primeira volta, em 04 de outubro, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma vantagem de 2.224.965 votos, sendo que, desde a introdução do sistema de duas voltas nas presidenciais brasileiras, em 1989, nenhum candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu vencer a eleição..Louvores, cânticos de futebol e anti-PT em pavilhão lotado para carregar Flávio Bolsonaro.Campanha de Lula da Silva pede anulação da candidatura de Flávio Bolsonaro por "ingerência" da Meta