Esmeraldas ainda não lapidadas da mina de Itabira.
Esmeraldas ainda não lapidadas da mina de Itabira.Foto: O Conto Filmes

Da escuridão ao brilho: por dentro da jornada das esmeraldas em Itabira

O DN Brasil esteve 150 metros abaixo da terra, na mina Belmont, a entender como um metal extraído da rocha, pela mão de mineradores, se transforma em jóia de luxo, pela mão de um designer candidato ao “Oscar da joalheria”.
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Bavaria Filmstudios, Munique, Fevereiro de 2026. No exclusivo local onde Alfred Hitchcock, Elia Kazan, Billy Wilder, Stanley Kubrick, Orson Welles, Claude Chabrol e outros gênios do cinema gravaram filmes, umas das mais elegantes apresentadoras da TV alemã, Nazan Eckes, apresenta a nona edição dos prêmios Inhorgenta, considerados o Óscar da joalheria, perante uma plateia que irradia glamour nas roupas, nas joias, nos relógios, nos penteados, nos gestos.

Entre os nomeados, Márcio Granatowicz, primeiro brasileiro a disputar o prêmio: o carioca é candidato a Designer do Ano com a peça Anel Buquê, produzida em ouro 18 quilates, além de dois diamantes, num jogo sofisticado de luz e sombra com 14 discos côncavos, cortados e moldados à mão. E, como seria de esperar de um dos eventos mais prestigiados da alta joalheria do planeta, a noite decorreu tão deslumbrante e brilhante como as jóias de Granatowicz, sócio da prestigiada Art’G e da recém lançada Casa Granatowicz ao lado do empresário Henrique Cristiano.

Mina Belmont, Itabira, Minas Gerais, junho de 2026. Muito longe do brilho de Munique, o geólogo Rildo Gonçalves lidera uma equipe de dezenas de anônimos engenheiros e mineradores, de Warlisson a Lisberte, de José Benedito a Valdecir, que 150 metros abaixo da terra, por entre a escuridão, as rochas e o pó, faz tudo por mais uma esmeralda.

A Mina Belmont, apesar de lhe faltar o “e” final para ficar com uma sonoridade afrancesada, tem tudo a ver com Belmonte, a vila portuguesa da Beira Baixa onde, por um acaso, nasceu, algures no ano de 1467, Pedro Álvares Cabral. Belmonte é também conhecida pela comunidade judaica que dos séculos XIII a XVI resistiu à inquisição.

Foi lá que parte da família Ribeiro, de judeus sefarditas originários de Évora, no Alentejo, se refugiou. Outra parte preferiu o Brasil e, por algum capricho do destino, Itabira, a cidade natal do poeta Carlos Drummond de Andrade, onde se estabeleceu e nomeou a propriedade da família em homenagem à cidade beirã, ainda que sem o “e” final.

Mauro Ribeiro, um dos familiares, saiu da fazenda Belmont aos 19 anos para fundar uma companhia de transporte que servia a mineradora Vale, a maior produtora de minério de ferro do mundo com sede na região. Os generais da ditadura militar, porém, decidiram nacionalizar a empresa, para tristeza de Ribeiro. E essa tristeza logo se refletiu na saúde do jovem empreendedor: um médico, o Dr. Wilson, diagnosticou-lhe um esgotamento e recomendou-lhe repouso absoluto. Por isso, ele voltou a Belmont para descansar em 1978.

Um dia, ao criar um lago para alimentar as vacas recém adquiridas, viu surgirem umas pedrinhas verdes reluzentes que tratou como rejeito comum. Foi um dos funcionários, José Horta, que por ter uma namorada em Teófilo Otoni, outra cidade mineira onde há décadas se comercializam pedras preciosas por fortunas, quem avisou Ribeiro: “isto são esmeraldas, eu vou negociá-las em Teófilo Otoni e dividimos o lucro”.

Ao ver Horta voltar com mais dinheiro ganho num dia do que aquele que ele fazia num mês a servir a Vale, Ribeiro abandonou a empresa de transporte e foi a Brasília protocolar a posse da mina das valiosas pedrinhas verdes. Durante a estadia na capital federal, no entanto, cerca de 500 pessoas, alertadas pelas notícias, invadiram Belmont. E, para piorar, em 1979 a região de Itabira foi atingida por enchentes terríveis.

Mas há males que vêm por bem: essa tempestade coincidiu com a descoberta de uma outra mina de esmeraldas, em Goiás, o que levou os ávidos invasores a deixarem a inundada Belmont e partirem em massa para o centro-oeste brasileiro.

Ribeiro aproveitou então para vedar a propriedade e começar a explorar, em família, as esmeraldas. Num ambiente de faroeste, porém: “até ao fim da vida ele só se sentava de costas para a parede nos restaurantes, para não ser atingido por trás, e os irmãos, filhos e sobrinhos usavam armas à cintura todo o dia na fazenda“, conta Marcelo Ribeiro, neto de Mauro e atual CEO da Belmont Mineração cujo parto foi efetuado pelo mesmo Dr. Wilson que diagnosticou o avô e esteve por isso na gênese da descoberta da mina.

Riscos

Ao contrário do avô, Marcelo não usa arma à cintura e nos restaurantes senta-se descontraidamente de costas para a porta. Mas não despreza a segurança de Belmont: “temos 60 seguranças armados e 30 rottweilers em torno da propriedade para impedir invasões”, diz o engenheiro de minas de 49 anos que, por precaução, evita a presença na mídia brasileira e até fotografias em redes sociais. Além disso, a mina Belmont dispõe de dezenas de câmeras de vigilância supervisionadas 24 horas por dia numa sala operada, por exemplo, por Tamires, que revela ao DN Brasil que ainda é “muito comum” ver intrusos a tentar entrar na propriedade.

Afinal, uma só esmeralda, por fazer parte do chamado big three das pedras preciosas coloridas da alta joalheria, ao lado do rubi, vermelho, e da safira, azul, pode custar até 30 mil euros. E Belmont é a maior mina subterrânea de esmeraldas do Brasil e do mundo, incluindo Colômbia e Zâmbia, outros tradicionais produtores do minério. “A esmeralda é um berilo de cor verde, isto é, o que temos na mina é a junção entre o mineral berilo e o metal cromo, que dá a cor verde ao berilo”, conta o geólogo Rildo Gonçalves ao DN Brasil em frente ao mapa da mina, nas profundezas da terra.

Para lá chegar, somos conduzidos por uma espécie de ônibus subterrâneo apertado entre ameaçadoras rochas de um lado e de outro que geram de início uma sensação tensa de claustrofobia ao visitante; aos poucos, no entanto, o visitante substituiu a sensação tensa de claustrofobia pela empolgação juvenil de se ver mergulhado numa espécie de aventura real de Júlio Verne ou de Indiana Jones.

“Mas”, prossegue Rildo, para quem estar 150 metros abaixo do chão é apenas mais um dia no escritório, “berilo e cromo não têm afinidade, para eles estarem juntos na natureza é necessário que surja um evento que coloque os dois elementos em contato, como, por exemplo, o fechamento de oceanos e a formação de montanhas, ou seja, para que ambas interajam é necessário o processo de colocar rochas da crosta oceânica sobre rochas da crosta continental”. “No caso desta mina, há indícios de que o evento que a gerou ocorreu há dois milhões de anos”, completa.

O processo de perfuração e contenção do maciço é todo mecanizado - a mina dispõe de máquinas que detectam o metal precioso por laser - e avança, em média, três metros por dia. O minério é então levado por caminhões para a planta, onde funcionários começam por separar os rejeitos das esmeraldas. Já na sede da empresa dezenas de funcionários em fila, cada um com uma câmera de vigilância atenta a eventuais desvios, ordenam as pedras em categorias pré-estabelecidas.

Antes de chegar às mãos dos designers de luxo, um lapidador com sensibilidade artística apurada, decide o formato das pedras: “esta vai ser em gota, esta vai ser retangular, esta vai ser em cilindro e esta triangular”, diz Donizete da Silva ao DN Brasil, com as pedras, ainda sem forma compreensível aos olhos de um leigo, na mão. “São extraídas 800 a 1000 toneladas por dia de minérios da mina, 5% da produção total é de esmeraldas de alta qualidade e 0,3% é de super qualidade”, explica Marcelo Ribeiro.

Dessa percentagem de alta qualidade, apenas 5% é dirigida às principais joalherias do mundo. “A Dolce & Gabbana e a Louis Vuitton de vez em quando nos contactam para produzir diretamente para relógios ou jóias deles, nós até já acedemos três vezes, porque o preço é bom, mas nos arrependemos em todas elas, porque nos toma muito tempo e é um trabalho para o qual não estamos vocacionados…” Os outro 95%, por isso, vão para leilão em Bangkok, na Tailândia, onde grandes empresas, sobretudo indianas, adquirem ao melhor lance as pedras extraídas em Itabira e as levam para Jaipur, a capital mundial do corte e lapidação de esmeraldas.

São toneladas de pedras preciosas, cujo valor depende da qualidade, sendo que a tonelada de uma esmeralda selecionada de gema limpa pode atingir 500 milhões de euros. “Entretanto, esta é uma das atividades mais ‘Robin Hood’ do mundo porque as jóias empregam e servem a população da região”, gosta de sublinhar o CEO, que assistiu financeiramente José Horta, o primeiro sócio de Mauro Ribeiro, até ao fim da vida dele. “A mina está ao cuidado da nossa família mas é do Brasil, é do povo do Brasil, a turma do luxo que compra joias na Quinta Avenida ou na Place Vendôme não conhece nada do processo”.

É, aliás, isso que move o designer Márcio Granatowicz, cuja última coleção, a Emerald Lake, inspirada pelo famoso lago canadense do mesmo nome, utiliza as esmeraldas da mina Belmont. “As esmeraldas da Belmont são luxo limpo, são peças que agregam valor, não destroem o ambiente, só o protegem e fazem toda a população da região beneficiar-se, a rastreabilidade e a sustentabilidade das pedras é uma das nossas preocupações”, defende o artista.

“A linha Emerald Lake vai ser a primeira a ser vendida, via Casa Granatowicz, criada a partir da Art’G para as marcas mais exclusivas da marca, a apenas dez empresas no Brasil, podemos dizer que todo este caminho é baseado em exclusividade, da exclusividade da pedra, que a Belmont nos garante, à exclusividade na venda do produto final”, acrescenta o sócio Henrique Cristiano.

E Granatowicz, que este ano perdeu o Óscar da joalheria para o alemão Johannes Hundt, já se inscreveu na 10ª edição dos prêmios Inhorgenta, que vai decorrer em fevereiro de 2027, em Munique, certamente diante de uma plateia que irradiará glamour nas roupas, nas joias, nos relógios, nos penteados, nos gestos, com uma peça feita de uma esmeralda extraída da mina Belmont, em Itabira, Minas Gerais, 150 metros abaixo da terra.

O DN Brasil viajou a convite de Belmont e ART’G.

Este texto está na edição impressa do Diário de Notícias desta segunda-feira, 06 de julho.
O DN Brasil é o braço do Diário de Notícias dedicado à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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