Segundo a sua visão, o Brasil "bate de frente contra toda a porcaria" contemporânea e Portugal é "mais lento”.
Segundo a sua visão, o Brasil "bate de frente contra toda a porcaria" contemporânea e Portugal é "mais lento”.Foto: Paulo Spranger

Valter Hugo Mãe vê Brasil como "escola de futuro" para Portugal e leva palavras brasileiras para seus livros

Em São Luís do Maranhão, o escritor descobriu a expressão típica "marocar", utilizada para descrever o ato de 'fofocar', e decidiu incorporá-la nas páginas finais do seu mais recente livro.
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O escritor Valter Hugo Mãe realiza uma extensa digressão literária pelo território brasileiro, com passagens confirmadas por cidades como Brasília, São Paulo, São Luís, Curitiba, Niterói e também pelo Rio de Janeiro. A viagem começou pela FLIP, em Paraty.

Em todas estas andanças, Valter Hugo Mãe confessa à agência Lusa que viaja com a predisposição intelectual de "roubar tudo" o que encontra de fascinante no que diz respeito à linguagem e às expressões regionais que enriquecem o seu vocabulário. Ele argumenta que, ao levar um termo específico para o seu próprio território literário, a palavra passa a ser valorizada num espaço cultural muito mais amplo do que o seu contexto original de nascimento e uso quotidiano.

Um exemplo notável ocorreu em São Luís do Maranhão, onde o escritor descobriu a expressão típica "marocar", utilizada para descrever o ato de 'fofocar', e decidiu incorporá-la nas páginas finais do seu mais recente livro. O autor descreve esta prática de utilizar termos regionais como "adesivos de viagem" que identificam permanentemente o local onde aquela parte específica da narrativa foi escrita, homenageando assim a exuberância da língua portuguesa falada no Brasil.

O seu novo romance, intitulado O Século dos Imbecis, marca o início da tetralogia "Crimes e Vindouros", funcionando como uma alegoria profunda e satírica sobre os dilemas e as crises que marcam a sociedade contemporânea.

No centro da narrativa encontra-se a personagem Agilulfo, nome que foi buscar ao Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino e que, segundo conta o escritor à Lusa, serve como uma metáfora do telemóvel, colocando o dilema de usar o objeto para subir a montanha da erudição ou descer para uma dimensão imbecilizada, infantilizada e irresponsável que marca a nossa época.

“Temos progredido para nossa própria erudição, ou estamos a progredir para uma dimensão mais lúdica, infantilizada e imbecil que acaba por ser mais irresponsável e imprestável”, avalia. Sobre o estado atual da humanidade, o autor destaca que a ignorância perdeu a vergonha e adquiriu autoestima, alertando que, em muitas situações políticas contemporâneas, já não se trata apenas de falha de conhecimento, mas da "prática da pura maldade".

Hugo Mãe investiga agora o conceito de racismo, definindo-o como algo subtil praticado até por quem se julga isento, gerando o que chama de "racismo ingénuo de boa fé" por parte daqueles que nunca aclararam efetivamente o significado de ser racista. Questionado o porquê visitar temas como racismo e o negacionismo neste momento, o escritor respondeu: "Eu sempre fui avançando assim por coisas que me parecem meio fraturantes, mas talvez de uma forma muito velada”, realçou.

“E essa tetralogia que eu início com O Século dos Imbecia, a que eu chamei Crimes e Vindouros, é uma tetralogia que pretendo que seja bastante direta, embora metafórica, alegórica”, completou. Diante da manipulação coletiva e das fobias inventadas para desumanizar o outro, o escritor recorda a frase de um amigo que tentou mudar o mundo, mas que agora "só tenta que o mundo não o mude" a ele.

Esta frase reflete a resistência do autor, que se sente convicto, nas suas próprias palavras, de que a sua principal missão é permanecer lúcido perante uma cidadania que considera débil e facilmente seduzida por discursos de ódio e fobias. “É cada vez mais convicta de que me compete estar lúcido diante do que acontece, e por isso estar convicto daquilo em que eu acredito”, pontua. “Por isso, preocupa-me muito a cidadania débil, uma cidadania que facilmente é convencida a fazer o contrário daquilo em que acreditava”, completa.

"Escola do futuro"

Valter Hugo Mãe descreve o Brasil como uma "escola de futuro" para Portugal, pois as crises e os retrocessos contemporâneos costumam atingir o território brasileiro com uma violência e uma rapidez muito maiores devido à sua escala. Segundo a sua visão, o Brasil "bate de frente contra toda a porcaria" contemporânea como se fosse um iceberg inevitável, “enquanto Portugal, por ser mais lento”, acaba por chegar mais tarde a esses mesmos cenários.

"Tenho a impressão de que, por diferença entre Portugal e o Brasil, é que o Brasil, em relação a Portugal, vive um pouco mais no futuro, ou seja, o que é terrível acontece primeiro ao Brasil. O Brasil descobre primeiro o terrível da contemporaneidade e Portugal fica meio adiado, é mais lento a chegar àquilo que parece inevitável acontecer", avalia.

O autor utiliza a metáfora de um acidente violento contra um muro para descrever os recentes períodos de governação de extrema-direita no Brasil, que resultaram numa rápida destruição de estruturas construídas de forma lenta.

Para o escritor, em muitas situações políticas atuais já não se verifica apenas uma falha de conhecimento ou ignorância, mas sim a "prática da pura maldade" como estratégia deliberada de poder e desumanização.

Valter Hugo Mãe permanece em território brasileiro até ao dia 17 de agosto a andar, nas palavras dele, de um lado para o outro entre os estados brasileiros.

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