Blaya, nome artístico de Karla Regina Rodrigues, nasceu em Fortaleza, capital do Ceará, e vive em Portugal desde os dois meses de vida, quando os pais decidiram emigar.
Blaya, nome artístico de Karla Regina Rodrigues, nasceu em Fortaleza, capital do Ceará, e vive em Portugal desde os dois meses de vida, quando os pais decidiram emigar.Gerardo Santos

"A minha ginga é brasileira". A vida de Blaya, das origens no Ceará às raízes no Alentejo

Em novo trabalho, Arraial, artista mistura festas juninas nordestinas com santos populares de Portugal. Ao DN Brasil, revela o seu lado luso-brasileiro e enaltece o caminho dos pais: "lutam até hoje".
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Nascida em Fortaleza, Karla Regina Rodrigues, praticamente não teve tempo de aproveitar as maravilhas da sua terra natal. Quando tinha apenas dois meses, a família decidiu seguir rumo a Portugal, onde o pai queria apostar na carreira de jogador de futebol. Foi em Ferreira do Alentejo que os imigrantes se fixaram e começaram a construir uma nova vida. Quase 39 anos depois, as origens cearenses e as raízes alentejanas formam a personalidade de Blaya e se fundem num novo trabalho, um álbum batizado de Arraial, que acaba de ser lançado.

"Muitos brasileiros não sabem que sou brasileira", confessa ao DN Brasil. "Ou pensam que sou angolana, cabo-verdiana". A confusão tem algum sentido. Para além de ter crescido em Portugal, Blaya se lançou como artista quando fez parte do do grupo Buraka Som Sistema, uma banda luso-angolana que teve grande projeção internacional levando uma versão moderna do ritmo kuduro mundo afora.

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"Fiquei no grupo como bailarina e vocalista desde 2008 a 2016. Então, efetivamente, foi o início da minha carreira profissional. Eu já tinha esse gosto pela música, já fazia as minhas canções, já gravava, mas mesmo profissionalmente na música foi em 2008. Viajamos pelo mundo, eles foram basicamente os meus mentores, ensinaram-me como estar em palco, o que fazer, o que não fazer".

Foi em 2018 que Blaya alçou o seu primeiro voo solo de sucesso, também marcando a estreia da sua brasilidade num projeto profissional, com o lançamento de Faz Gostoso, um funk, escrito e cantado em português do Brasil que ganhou uma regravação de Anitta e Madona.

Blaya ocmeçou a carreira profissional com o grupo Buraka Som Sistema.
Blaya ocmeçou a carreira profissional com o grupo Buraka Som Sistema.Gerardo Santos

Embora o sotaque brasileiro só tenha aparecido para o público em 2018, Blaya diz que nunca esteve desconectada do país natal. As influências na música e na dança sempre estiveram presentes. "Uma das coisas que eu adorava e que me lembro, quando ia ao Brasil, era mais pequenina, era dançar Boquinha na Garrafa, todos os grupos de pagode, depois axé, tambor, quando eu voltei lá mais adulta, era já no forró. Gosto muito de dançar forró e gosto muito desta sonoridade".

Depois de abrir a carreira solo com o funk, "durante a quarentena comecei a explorar mais outros ritmos e a querer trazer o meu gosto de dança, os ritmos que eu gosto de dançar também para cantar e para escrever. E fiz uma música que se chama Sabiá, que tem uns ritmos assim com a sanfona, mas não é de caras que é um forró. Quis trazer essas referências e ir colocando nas minhas músicas", destaca.

"E agora vem o Arraial". O nome é para deixar claro, desde logo, que esta é uma mistura entre Brasil e Portugal. Se no Ceará as quadrilhas juninas enchem de cor e alegria o mês de junho, por cá são as festas dos santos populares e as marchas que dão o tom. Arraial é um álbum que traz a história de vida de Blaya em Ferreira do Alentejo, é tanto que o primeiro single se chama No Meu Tempo de Escola, mas que junta "todo esse meu gingado".

"É super misturado, muitas influências. Primeiro os Buraka Som Sistema, que era uma coisa mais afro e eletrônica. Depois o Brasil, depois Portugal e meter isso tudo junto. A música é meio um samba com semba. É trazer essa celebração entre o Brasil e Portugal e reunir toda a gente comigo e passar uma hora e meia de festa e de celebração entre estas referências todas que eu tenho".

Luta imigrante

A gravação do clipe do novo single trouxe um momento especial desta conexão entre dois países. "A minha mãe participava nas festas juninas. Ela ia, dançava mesmo, tinha o seu traje. Para o vídeo, nós montamos um arraial lá em Ferreira do Alentejo e a minha mãe é que fez as coisas todas, a pendurar as coisas todas. E é muito interessante também porque ela lembrou-se de como é que ela fazia. Ela dizia assim, 'nós passávamos a noite toda a fazendo isso'. E era a noite toda também a festejar. E trazer isso também para o vídeo, trazer essa coisa do arraial, é muito bom", conta.

Durante toda a vida, Blaya tem acompanhado a trajetória dos pais e a realidade do que é ser um imigrante. Logo que chegaram ao Alentejo, Regina e Carlão foram apanhar azeitonas e trabalhar na agricultura, "o que acaba por ser atividades que naturalmente quem vem de outro país acaba por fazer também. Para encontrar trabalho, se fixar em outros sítios. Então desde muito cedo que eu também vi eles a trabalhar muito e muito esforçados naquilo que estavam a fazer", diz a artista.

Com o tempo, Regina, cabeleireira de formação, conseguiu abrir o próprio salão. Carlão, depois do futebol, "neste momento é um faz-tudo", diz Blaya. "Para além dos trabalhos que eles têm, passam a vida a ajudar toda a gente lá em Ferreira. Porque também foram muito ajudados pela comunidade, então eles também sentem que têm que retribuir dessa maneira".

A artista reconhece que o objetivo dos pais com a mudança foi o mesmo de outros milhares de imigrantes. "Nós saímos do Brasil para ter uma vida melhor. Foi uma vida e ainda continua a ser de luta, de trabalho, todos os dias os meus pais lutam e trabalham para ter uma vida melhor, para consturir objetivos e sem dúvida para ajudar todos que estã a volta deles. Eles sabem que, para quem vem de fora, não é fácil, então eles dão chão, dão casa, dão comida a toda a gente".

Uma luta que Blaya também exerce, diariamente, ao ser uma mulher brasileira, mãe de duas crianças e artista independente. "Portugal continua a ser um lugar de sonho. É adaptarmo-nos ao que está a acontecer e é esforçarmo-nos. Queremos uma coisa, temos que nos focar e de certeza que vamos conseguir.".

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
Blaya, nome artístico de Karla Regina Rodrigues, nasceu em Fortaleza, capital do Ceará, e vive em Portugal desde os dois meses de vida, quando os pais decidiram emigar.
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